domingo, 9 de maio de 2010

Resenha: As barricadas da saúde - vacina e protesto popular no Rio de Janeiro da Primeira República

Amanda Alves
Deise Albuquerque
Jeniffer Ferreira
João Rubens Vasconcelos
Vanessa Albuquerque



Em As Barricadas da Saúde, Leonardo Pereira tenciona interpretar a revolta da vacina a partir das perspectivas dos agentes diretos desse episódio: em sua maioria, trabalhadores de diversas regiões do Rio de Janeiro, mostrando que eles tiveram papel fundamental no processo da revolta. Para tanto, faz uma reflexão sobre a densidade da desigualdade social da região, amparada sob as bases de uma relação senhorial desfeita recentemente, onde a dicotomia e a mistura entre senhores e escravos geravam profundas fissuras sociais, raciais e culturais. Entretanto, as tensões sociais não se baseavam apenas nas questões da antiga sociedade monárquica, mas adquiriam uma gama de novas características, colocando em conflito indivíduos de um mesmo grupo social. A elaboração de novos conhecimentos, como a Medicina, abria espaço para definição de ignorâncias, onde os sujeitos leigos perdiam status. O sentido social dos ‘novos saberes’ era justificar a supremacia de certos grupos em detrimento de outros.

Partindo desses argumentos principais Pereira começa, no primeiro capítulo, Vacina, Varíola e outras formas de cura, a descrever um pouco mais sobre o momento político da Capital Federal. No governo de Rodrigues Alves (1902) inicio-se uma série de reformas na capital. O prefeito do Rio, Pereira Passos, começou um processo de reforma urbana, marcada pela abertura de avenidas, expulsando assim muitos trabalhadores instalados em cortiços e casas de cômodos da região central. Outra preocupação urgente do governo era com relação à higiene pública, pois a população vinha definhando com o grande surto de doenças transmitidas pelas condições sanitárias da cidade. Por ter conseguido a erradicação quase total da peste bubônica em São Paulo, Oswaldo Cruz assume o posto de Secretário-Geral da Saúde, em 1903. A par das teorias recentes na medicina, Cruz recebe aval do governo para controlar a insalubridade da capital, alcançando índices significativos contra a febre amarela e a peste, por meio de atuações enérgicas e violentas. Na campanha contra a febre amarela, compôs grupos, intitulados ‘brigadas mata-mosquitos’, com o poder de invadir e vistoriar residências, fiscalizar e demolir construções. Em Junho de 1904 há surto de outra epidemia. Diferente das outras doenças, essa era de origem viral e mais difícil de ser combatida, sendo a vacinação o único meio eficaz de combatê-la. Oswaldo Cruz, então, propõe um projeto de obrigatoriedade da vacinação para toda a população, o qual foi muito mal recebido por toda sociedade carioca, pois compreendia no projeto um atentado contra as liberdades individuais, sendo até mesmo vexatório para a população. Pereira relata que o desrespeito aos direitos dos trabalhadores era uma constante, e os protestos contra a vacina sempre estiveram vinculados também à ação policial.

Essa hostilidade à polícia pode ser notada no romance O Cortiço de Aluísio Azevedo no momento em que ele narra um confronto entre os moradores do cortiço e a polícia, mostrando também como era arquitetada uma barricada: “A polícia era o grande terror daquela gente, porque sempre que penetrava em qualquer estalagem havia grande estropício; à capa de evitar e punir o jogo e a bebedeira, os urbanos invadiam os quartos e quebravam o que lá estava, punham tudo em polvorosa. Era uma questão de ódio velho. E, enquanto os homens guardavam a entrada do capinzal e sustentavam o portão da frente, as mulheres, em desordem, rolavam as tinas, arrancavam jiraus, arrastavam carroças, restos de colchões e sacos de cal, formando às pressas uma barricada” [i].

A mídia oposicionista se aproveitou para propagar idéias contrárias à vacinação, tencionando desmoralizar o governo e a própria vacina. “A própria lógica na qual se baseava a eficácia da vacina era, assim, utilizada por seus críticos para atacá-la, disseminando uma desconfiança sobre ela que parecia ir muito além dos círculos letrados restritos, que nesse momento capitaneavam a oposição às medidas de Oswaldo Cruz” [ii]. É importante lembrar que a medicina não era tão legitimada como hoje, representando apenas uma dentre as tantas práticas de cura, muitas delas adotadas pelos trabalhadores. O candomblé adquiriu força junto à parte da população carioca, pois muitos escravos da região central da África foram trazidos para a região centro-sul do país, criando entre eles laços de conhecimentos e identidades. Para Pereira, o sistema de crenças dos trabalhadores organizava a forma como viam e interpretavam o mundo. As religiões afro-brasileiras “baseavam suas opiniões em uma lógica muito bem articulada. Em um contexto no qual a própria medicina se mostrava objeto das mais vivas polêmicas e contestações, preferiam apostar em seu próprio saber, com o qual tinham contado por décadas, para buscar a imunização contra a doença” [iii].

Pode-se dizer também que as normas definindo a obrigatoriedade de vacina para certos grupos não era novidade no Rio de Janeiro, onde desde o século XIX as leis priorizavam as crianças, os cortiços e casas de cômodo. Em 1891, a vacinação obrigatória se estendia para funcionários públicos e membros da força policial, e em tempos epidêmicos era estendida a toda a população. A novidade no projeto de Cruz era a forma arbitrária adotada pelos funcionários da Saúde, invadindo domicílios, muitas vezes com o apoio da polícia, nutrindo a indignação do povo. Constava no projeto que o comprovante da vacina seria exigido nos trabalhos e hospedagens, afetando diretamente o trabalhador.

A tensão na cidade é crescente e impulsiona a organização do movimento contra a vacinação obrigatória. A classe trabalhadora, por meio do Centro das Classes Operárias, organização de tendências socialistas que congregava importantes sindicatos, realiza um encontro no dia 06 de Outubro de 1904 para criação de uma Liga Contra a Vacinação, apoiados por militares e políticos de grande prestígio entre as classes letradas. Desses oposicionistas faziam parte os positivistas – contrários ao governo e à vacinação, acreditando ser esta um atentado contra a privacidade –, o Exército – influenciado pelos positivistas – e os sujeitos desconfiados da eficácia da vacina. À época, tinha-se a pretensão, por parte da imprensa, de passar a idéia de um grupo opositor homogêneo e coeso, mas as motivações de cada grupo eram diversificadas. O autor deixa claro que os defensores e opositores à vacina acreditavam numa manipulação, de ambas as partes, da reação popular ao projeto de vacinação, excluindo a possibilidade de organização e ação autônomas.

Leonardo Pereira vai narrar o início e o desenvolver do confronto de forma muito similar à de José Murilo Carvalho, descrevendo as lideranças envolvidas e o controle que achavam ter sobre a população. Na verdade, as lideranças não incitavam a população à luta armada, pedindo calma e cautela para fazer valer os direitos patrióticos. Mas as massas já não seguiam o estabelecido pelas lideranças e o confronto crescia a cada dia. A revolta se espalhou com velocidade, tomando toda a região central, surpreendendo até mesmo a imprensa com a proporção da insatisfação em relação à lei de obrigatoriedade.

No dia 14 o conflito já se espalhara para outras regiões da cidade, que continuava a ser depredada pela ação dos confrontos. Condutores de energia elétrica, bondes, linhas telefônicas eram inutilizados pela população no combate à ação policial. Os conflitos assumiam caráter pior e mais violento nos bairros de trabalhadores e pobres: Saúde, Cidade Nova, Estácio, Gamboa. Para os adversários do governo essa reação das pessoas seria uma manifestação espontânea do ódio de um povo massacrado e perseguido pelo desvirtualismo da República; fruto da insatisfação de um coletivo homogêneo; expressão da ‘alma nacional’. Já o governo, acreditava que os conflitos eram originados por ações criminosas e inconseqüentes de arruaceiros, vândalos servindo a uma causa estranha a eles, desordeiros que se faziam da ocasião para badernar. Essa campanha de desqualificação dos revoltosos é minada pela própria mídia em favor do manifesto, pois jornais como Correio da Manhã relatavam a participação intensa dos trabalhadores.

No capítulo seguinte, Os rostos da revolta, Pereira aponta as participações de diversos grupos sociais envolvidos nas guerrilhas urbanas, sendo os vagabundos a menor parcela do contingente que se confrontava com a polícia. No começo dos conflitos houve participação massiva dos estudantes e funcionários públicos, e aos poucos os próprios empregados da Saúde Pública, soldados e policiais foram aderindo aos levantes. No entanto, a maioria dos manifestantes era composta por trabalhadores: ferreiros, padeiros, comerciantes, operários.

A revolta era movida por uma insatisfação generalizada capaz de aglutinar uma multidão não só de trabalhadores, mas, também, uma série de outros sujeitos que tomaram partido do acontecimento, criando um universo de diferenças e tensões. O conflito abarcou indivíduos discrepantes não só no que diz respeito às classes sociais, mas também às variações etárias – jovens, adultos e idosos participavam ativamente –, de gênero – as mulheres se empenhavam nos confrontos contra a força policial –, étnicas e de nacionalidade – muitos manifestantes eram imigrantes europeus, em sua maioria, portugueses e italianos.

A multidão não se enquadrava em nenhuma das imagens construídas para ela pela imprensa. “Ao contrário do que postulavam tais explicações gerais para a revolta, o que se notava em meio às ruas era a explicitação das diferentes redes de identidade e solidariedade, que explicavam a participação dos mais diversos sujeitos [...] Sem sequer tentar compreender tais motivações, por não ver nesses grupos capacidade de construção de tradição e práticas próprias, restava às autoridades insistir na tese de que o conflito era simples fruto da manipulação de lideranças” [iv].

No capítulo 3, intitulado A revolta da tradição, Leonardo Pereira pretende compreender algumas das motivações dos indivíduos que participaram dos acontecimentos de novembro de 1904. O autor começa evidenciando que existia por parte desses seres, um profundo descontentamento com relação aos rumos que a administração dessa República havia tomado, frustrando os anseios de uma população carente de melhorias das condições de vida. Essa decepção seria fundamental para que a revolta acontecesse.

A partir deste momento, o autor, dedica suas atenções aos acontecimentos que marcaram o fim do movimento, como a insurreição dos alunos da Escola Militar que em 14 de novembro, incitados pelo General Travassos e por Lauro Sodré, abandonaram suas posições unindo-se ao corpo de revoltosos. O governo por sua vez, organizou sua resistência, tendo contado com o apoio de diversos batalhões do Exército, espalhados pela cidade. Essa reunião de forças parecia necessária para conter o movimento, pois compreendia na ação dos militares, a intenção política de derrubar o governo de Rodrigues Alves e em substituição, implantar uma ditadura comandada por Lauro Sodré.

No confronto verificaram-se violência de ambas as partes, no entanto, considerando suas baixas, os soltados rebelados abandonaram seus postos. O que encerrava o levante militar. Segundo Pereira, os cadetes se identificavam com a figura de Lauro Sodré, no qual depositavam suas esperanças de retorno dos tempos da influencia militar na administração republicana, que após 15 anos estava concentrada em mãos civis. Nesse momento, o governo toma medidas mais enérgicas para conter os levantes, tais como a declaração do estado de sítio e a repressão aos jornais oposicionistas, o Correio da Manhã e O Comércio do Brasil. A medida sem dúvida estava relacionada ao aumento no número de tiragem desses jornais, e no temor de que o conteúdo exercesse influência sobre os manifestantes. Por outro lado, as autoridades aumentaram a perseguição, aos supostos líderes do levante militar, o que por conseqüência culminou no aumento das prisões. As forças do governo concentravam-se na captura dos líderes do movimento contra a vacinação, que por sua vez, se apressaram em esconder-se das autoridades. Essa debilidade levou os jornais governistas a promoverem críticas na qual o movimento era chamado ironicamente de “mazorca de fujões” [v]. Com a prisão ou desaparecimento dos líderes o fim do movimento parecia próximo. Mas teria ainda um fôlego final: Os revoltosos de Porto Arthur.

Leonardo Pereira analisa mais profundamente as barricadas do bairro da Saúde, último foco de resistência da revolta. As barricadas desse bairro e das regiões portuárias se transformavam em verdadeiras fortalezas, prontas para resistir e atacar a força pública. Na época comparou-se a resistência na Saúde com o episódio de Porto Arthur, em que os Russos formaram formidável resistência, durante a guerra russo-japonesa. As barricadas da Saúde impressionavam pela força e combatividade, causando grande terror às autoridades governamentais. Os revoltosos se mostravam como defensores de uma causa que a classe letrada parecia estar longe de compreender. A imprensa via as barricadas remanescentes como um grande ajuntamento de vagabundos.

Parte do temor das autoridades às barricadas de Porto Arthur estava relacionada às notícias vinculadas pela imprensa, onde foi montado um perfil sinistro para os manifestantes que dela faziam parte. Na opinião do autor, a imagem de Porto Arthur era construída mais pelo preconceito das classes letradas, e pelo medo do governo em relação às chamadas ‘classes perigosas’ do que à verdadeira ameaça que ela poderia oferecer.

Para além, havia por parte das classes instruídas e militares o consenso de que os trabalhadores não eram capazes de se mobilizar conjunta e autonomamente, o que seria para estes, uma marca da colonização portuguesa que teria feito predominar as “tendências pacíficas” [vi]. Opostamente, Lauro Sodré, atribuía a ausência de mobilização à herança da escravidão, que tornou impossível a organização de trabalhadores em prol de suas causas. As duas visões eram incapazes de considerar o povo carioca sujeitos capazes de interferir em suas realidades sociais.

Com a derrota da última barricada ela se desmistifica, o que evidencia que os manifestantes se aproveitaram do temor e da imaginação das autoridades, bem como da imprensa, para aumentar o poderio da barricada. Os jornais, por temor, romantismo ou estética, criaram personalidades e ensejos, características exóticas, para enfeitar o movimento revoltoso, principalmente no que diz respeito ao bairro da Saúde.

Os trabalhadores da Saúde, não tinham o perfil sindical combativo modelado na experiência européia, pelo contrário, mostravam suas próprias formas de articulação e enfrentamento, foi o caso dos estivadores da região do porto, que preferiram ficar afastados dos confrontos armados, mas que em contrapartida ‘cruzaram os braços’, atrapalhando as atividades do porto. Segundo Pereira, essas práticas de luta eram tão legítimas como as barricadas, ainda que alguns grupos sindicais criticassem esse tipo de arma.

Neste sentido, as associações de trabalhadores constituem papel essencial para a união, reconhecimento e solidariedade entre eles. Na mesma direção, os clubes recreativos – sejam eles carnavalescos, esportivos ou de dança – corroboraram para criar identidades comunais, através do auxílio mútuo.

Em seguida, Leonardo Pereira, investiga o contexto social, no qual as convulsões de 1904 aconteceram, pois até mesmo os jornais não acreditavam que apenas a vacina pudesse ser a única causa dos distúrbios.

No que se refere a isto, causava estranheza que os manifestantes atacassem alvos que não tinham relação aparente com a saúde pública - os bondes, a iluminação pública, o sistema de telefonia –, elementos modernizantes da cidade. Dessa forma, os revoltosos não apenas questionavam essa modernização, da qual muito deles estavam à margem, mas dificultavam a perseguição policial e a comunicação entre as delegacias.

Sob a perspectiva desse autor, os questionamentos quanto às motivações da revolta, não ficaram estáticos ao passado, sendo ainda temas vigentes na historiografia. Menciona a análise de José Murilo de Carvalho segundo a qual, o ímpeto para a revolta contra a obrigatoriedade da vacina, tinha suporte na questão da moral, que se configurava na medida em que as autoridades invadiam as casas dos trabalhadores para tocar o corpo de suas mulheres e filhas, a fim de injetar-lhes uma vacina “feita de rato” [vii]. Para Leonardo Pereira, se houve uma questão moral – que obviamente provinha de grupos letrados –, o povo ressignificou-a de acordo às suas necessidades, alargando o horizonte moral a ser defendido.

Para compreender essa questão, o autor adentra no universo simbólico das tradições do povo carioca.

Nas barricadas de Porto Arthur – o maior ponto de resistência –, verificou-se a presença de bandeiras brancas e vermelhas. Para o autor, as cores tinham menos significados políticos – pois o vermelho estava associado ao socialismo –, do que religiosos, já o vermelho e o branco eram a cor de “Obaluaiê, um poderoso Orixá da varíola – cujas contas e roupas tinham no vermelho, no branco e no preto suas marcas” [ix]. Não é preciso mencionar que já nessa época grande parte da população carioca era negra ou afro-descendente, por esta razão, o culto aos orixás [viii] era totalmente pertinente à cultura carioca. Os adeptos do Candomblé possuíam suas próprias práticas de cura, e por isso seus curandeiros eram perseguidos e – não apenas por isso – sua cultura desprezada. Portanto, para muitos, para além de lutar contra a obrigatoriedade da vacina, estavam em xeque suas práticas e crenças religiosas.

Por fim, o autor arremata que assim como os moradores do bairro da Saúde tinham motivações específicas – suas crenças –, outros grupos também podiam ter se envolvido na questão da vacina, em defesa de suas próprias demandas.

No capítulo conclusivo, Entre vitórias e derrotas, Pereira considera ao término dos embates, ainda que muitos envolvidos tivessem sido presos e cerca de duas dezenas deles tivessem tido suas almas ceifadas, o movimento obteve êxito, pois conseguiu impedir que o projeto de vacinação obrigatória fosse aprovado. Ainda que o custo da vitória tenha sido o aumento da perseguição policial e o aumento de epidemias, a liberdade de escolha das estratégias de cura estava garantida, e de igual maneira, ficava registrada na memória e na história, a capacidade associativa de trabalhadores que na maior parte do tempo pareciam anônimos.

A análise de Leonardo Pereira nos permite compreender que visões como as de Aristides Lobo, e de José Murilo de Carvalho de que o povo brasileiro era bestializado e bilontra respectivamente [x], são meras reproduções dos discursos dos grupos que se alternam no poder desde a proclamação da república. Por outro lado, Pereira nos apresenta um novo mundo simbólico que perpassa a herança cultural do povo brasileiro, nos permitindo enxergar a ação popular não apenas no âmbito político de suas reivindicações, mas também sua esfera cultural. Assim, caí por terra qualquer análise que considere que esse mesmo povo, seja incapaz de se mobilizar em torno de seus objetivos sejam eles políticos, econômicos ou sociais.



[i] AZEVEDO, A. O cortiço. 10 ed. São Paulo: Ática, 1890, p. 88

[ii] PEREIRA, L. A. de M. As barricadas da Saúde: Vacina e protesto popular no Rio de Janeiro da Primeira República. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2002, p. 22.

[iii] Ibidem, p.30

[iv] Ibidem, pp. 63-64

[v] Ibidem, p. 71

[vi] Ibidem, p. 81

[vii] Ibidem, p. 98

[viii] De acordo com Prandi em PRANDI, R. Segredos Guardados: orixás na alma brasileira. São Paulo: Companhia das letras, 2005. “O deus da peste, que recebe o nome de Olmulu, Olu, Odo, Obaluaie, Ainon, Sapatá, Xaponã ou Xapanã, resultou da fusão da devoção a inúmeros deuses cultuados em territórios ioruba, fom e nupe. As transformações pelo deus da varíola, descritas por Claude Lépine (1998, 2000) até sua incorporação ao panteão contemporâneo dos orixás, mostra a importância das migrações e das guerras de dominação na vida desses povos africanos e seu papel na constituição de cultos e conformação de divindades”. p. 107

[ix] Ibidem, p.100

[x] CARVALHO, José Murilo. Os Bestializados. O Rio de Janeiro e a República que não foi. 3. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

sábado, 8 de maio de 2010

Comentários e avaliação crítica à resenha de O Império do Belo Monte – Vida e Morte de Canudos de Wanice Nogueira Galvão.

Alex Moura
Aluísio Gomes
Ático Soares
Gabrielle Lucena
Ermano Oliveira
Tásso Araújo

Na última semana, o grupo responsável pela discussão sobre a obra de Walnice Nogueira Galvão, O Império do Belo Monte – Vida e Morte de Canudos, postou sua resenha neste blog e apresentou seminário sobre o texto em sala. Dando prosseguimento ao debate, expomos nossa análise acerca dos trabalhos realizados.

Inicialmente, a professora Isabel Guillen introduziu o tema de Canudos ressaltando a importância da história oral nas novas descobertas sobre o assunto e o crescimento da historiografia do movimento a partir de 1996,  influenciado pelo centenário da Guerra de Canudos. Destaca, também, sua discordância a respeito da interpretação do grupo sobre a “loucura” de Antônio Conselheiro presente no texto de Walnice, alertando sobre a dificuldade de entendimento dos fenômenos religiosos em geral. Posteriormente, os alunos esclareceram essa questão.

O texto de Walnice Galvão não é uma obra fácil de ser resenhada. Para entender a raiz do fenômeno Canudos, a autora inicia seu trabalho desde a chegada dos primeiros hominídeos na América, passando pela chegada dos portugueses e o empreendimento bandeirante. O grupo foi muito bem ao sintetizar essa parte do texto na resenha, apesar de ter se alongado um pouco no assunto durante a apresentação.

Nesse momento o grupo procurou elucidar a polêmica sobre a suposta loucura de Conselheiro, destacando que a autora, quando trata do tema, se recorre a João Brígido, jornalista e amigo de infância de Conselheiro, destacando que a idéia de um Conselheiro “louco” não é de Walnice. No entanto, ao ler a resenha, tem-se a impressão imediata de que a idéia é da autora, "A loucura, portanto, já viria da família, e seu veredicto a respeito é que ele se tornou um monomaníaco", diz Walnice (2001, p. 22). O entendimento se tornaria mais fácil se o grupo tivesse sido tão claro na resenha quanto foi na apresentação.

Outro ponto de relevância se deu quando da abordagem do grupo acerca do significado da palavra sertão, remetendo-se ao conceito de Robert Levine, ao mesmo tempo em que se contrapõem e esse conceito embasados na opinião de Walnice sobre o tema. A professora Isabel e outros alunos também deram sua contribuição neste assunto. Essa discussão é particularmente interessante por mostrar o quanto o conceito e o espaço conhecido como sertão foi sendo alterado historicamente.

Na quarta feira ao abordar a questão da religiosidade o grupo cometeu um equívoco ao afirmar que a religião era uma forma daquelas pessoas fugirem da realidade miserável. A professora Isabel reiterou a importância de se olhar à religião não a partir da razão ocidental, mas a partir dos códigos sociais daquelas pessoas. Outros alunos também se envolveram nessa discussão. A conclusão a que se chegou nesse debate é que a religião é algo intrínseco as pessoas, uma forma de dar significado a vida e ao mundo que o cerca.

A seguir foram discutidas as condições políticas que antecederam a formação de Canudos e a organização social do arraial. A resenha falhou em ressaltar algumas figuras centrais na política baiana como o Barão de Jeremoabo e o governador Luiz Viana, destacados pela autora ao longo do livro. Essa falha comprometeu o entendimento sobre a oligarquia baiana da época. A organização social é explicada em parte no texto, mas faltou uma exposição maior e melhor sobre o assentamento da terra. Esse ponto foi explicado em sala pela professora. Por fim, o grupo fez uma boa explanação sobre a guerra, mas ficou a sensação de que as duas aulas não foram suficientes para o grupo apresentar tudo o que desejava.

A equipe conseguiu a façanha de manter a coerência discursiva em um texto escrito a doze mãos, fazendo uma boa resenha do livro sem parecer uma colcha de retalhos (coerência discursiva 2,0 pts). O texto resume bem o trabalho da autora, mas algumas idéias escaparam ou não ficaram completas como a organização social do arraial, as condições políticas baiana e a questão religiosa (objetividade 1,5 pts). Já na parte do posicionamento do grupo os mesmos, fizeram apenas descrever as principais partes do texto não tendo um posicionamento a frente das questões levantadas ainda que o trabalho da autora seja essencialmente narrativo, mas há de se questionar algumas escolhas de Walnice, como por que ela dá tanto peso a opinião de João Brigido ao falar da “loucura” de Conselheiro(posicionamento crítico 1,0 pts). O grupo fez um bom debate com a historiografia da autora, trazendo a luz outras opiniões, ainda que discordemos que Edmundo Moniz tenha uma postura parecida com a de Walnice. Moniz via a religião apenas como um pano de fundo para a luta social, e não é essa a intenção de Walnice Galvão (debate historiográfico 1,5 pts). As normas da ABNT foram seguidas corretamente (Uso correto da ANT 2,0 pts). Com base nisso atribuímos ao grupo a nota 8,0.

A Revolta da vacina: Mentes insanas em corpos rebeldes.

SEVCENKO, Nicolau. A Revolta da vacina: Mentes insanas em corpos rebeldes. Scipione, São Paulo, SP, 2001.

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Isabela Magalhães

Juliana Pinho

Kallyna Helena Marcolino

Luiz Felipe Batista Genú

Nathalia Bezerra Soares de Melo

Rafael de Andrade

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A Revolta da Vacina é um tema que chama a atenção devido a suas particularidades, como a ampla participação da população e a violência dos embates entre revoltosos e as forças de repressão, ocorridos nas ruas da capital federal da época. Entender a verdadeira motivação de um movimento tão intenso e que conseguiu abranger uma gama tão variada de pessoas destaca-se como algo fundamental para a real compreensão não apenas sobre a revolta, mas também a respeito dos primeiros anos da republica brasileira. Com o objetivo de chegar às causas mais profundas da rebelião e, além disso, analisar a relação entre essas causas e as características da sociedade brasileira da época, o professor Nicolau Sevcenko, em 1983, dedicou o livro “A Revolta da Vacina – Mentes insanas em corpos rebeldes” a investigação do tema.

No primeiro capitulo, cujo título é “O motim popular: ímpeto”, o autor faz uma descrição detalhada do cotidiano da revolta que se passou em 1904 no Rio de Janeiro, então capital federal do Brasil. Segundo o autor, esta aconteceu em virtude da crescente insatisfação popular com a política de reformas do presidente Rodrigues Alves, que chegou ao ápice durante a campanha sanitária de vacinação contra a varíola.

Os setores de oposição política da época reagiram ruidosamente à campanha da vacinação. Eram os principais opositores os florianistas, jovens oficiais formados nas escolas técnicas de preparação de cadetes, que preconizavam uma reorganização da sociedade inspirada, entre outros, nas teorias de Augusto Comte; os jacobinos, civis, oriundos de setores urbanos prejudicados pelo governo e aliados ideologicamente ao primeiro grupo, e por fim, mais interessados na desestruturação do governo republicano como um todo, os monarquistas. Esta oposição heterogênea, que já vinha articulando um golpe contra o governo, viu na reação popular uma oportunidade para legitimar suas ações e começou intensa campanha contra a vacina, tanto entre o povo, com a ajuda de alguns setores da imprensa, quanto no âmbito político, onde usaram de toda a sua influência para retardar a promulgação de uma possível lei de obrigatoriedade da vacina.

A medida era de interesse do governo, que defendia que a vacinação era de extrema importância para a saúde publica do Rio de Janeiro, na época o maior foco de varíola no Brasil; além disso, dizia que tais medidas sanitárias já haviam sido implantadas com sucesso em países europeus. A oposição argumentava que a eficácia dos soros era contestável, assim como a competência e a moralidade dos enfermeiros, fiscais e policiais responsáveis por sua aplicação. Criticavam, acima de tudo, o caráter obrigatório da lei, a qual chamavam de tirana. Mesmo elementos da elite social que não se identificavam como opositores, como Rui Barbosa, mostravam insegurança quanto à eficácia da vacina. A massiva campanha contra a vacina fez-se sentir: em agosto de 1904, apenas 6 mil pessoas procuraram voluntariamente a vacinação, contra 23 mil pessoas no mês anterior.

Apesar da controvérsia, a lei foi votada no dia 31 de outubro e sua regulamentação foi delegada ao Departamento de Saúde Pública, que era dirigido por Oswaldo Cruz. O regulamento esboçado por este, publicado no jornal A Notícia no dia 9 de novembro de 1904, apresentava termos extremante rígidos e impunha diversas complicações para os que não se vacinassem, como multas pesadas e suspensão de certos direitos civis. Nicolau Sevcenko nota a falta de preocupação, da parte dos dirigentes, com a preparação psicológica da população para a vacinação.

As agitações começaram no dia seguinte à publicação, com resposta quase imediata da Brigada Policial.

No dia 11, A Liga Contra a Vacina Obrigatória, encabeçada por Lauro Sodré e com o apoio do Centro das Classes Operárias, incitou e liderou as manifestações populares. A Liga, um instrumento da oposição, pretendia usar da revolta para abalar o governo e concretizar seu próprio projeto político, mas não teve sucesso e eventualmente perdeu o controle dos manifestantes; o autor argumenta que “para os amotinados não interessava selecionar lideres ou plataformas, mas sim, lutar por um mínimo de respeito à sua condição de seres humanos. A Liga então diminui sua importância no seio do movimento, que tende a tomar um curso dispersivo e espontâneo” (SEVCENKO, 2001, p. 20).

Nos três dias seguintes a agressividade dos populares cresceu, com a vandalização de propriedade pública e a disposição de barricadas e trincheiras nas ruas. As autoridades perderam o controle da região central e de bairros periféricos, como a Gamboa e a Saúde. Os materiais resultantes da reforma urbana da cidade serviam de munição para os insurretos.

A reação do governo foi brutal: lançou mão de todos os recursos de contenção disponíveis, convocando, além da Polícia, o Exército, a Guarda Nacional e a Marinha, que chegou a bombardear bairros e regiões costeiras. Só através dessa impressionante mobilização de forças repressivas é que o governo conseguiu, afinal, responder à insurreição.

Afinal, no dia 16 foi revogada a obrigatoriedade da vacina. Com os revoltosos finalmente subjugados e retirada a causa imediata da revolta, o movimento chega ao fim. A cidade após a revolta era um caos de destroços e ruínas, com marcas de combate por todas as partes, além de um numero incalculável de mortos e feridos.

No segundo capítulo, intitulado “Conjunturas sombrias: angústia”, o autor retoma algumas medidas dos governos anteriores para explicar em que situação Rodrigues Alves foi recebido na cidade do Rio de Janeiro. Identificado como continuador do projeto político impopular do governo de Campos Sales, o novo presidente teve uma recepção fria, uma vez que, segundo o autor, a população carioca votara maciçamente no candidato da oposição, Quintino Bocaiúva. (SEVCENKO, 2001, p. 37)

Enquanto o presidente paulista Prudente de Morais, eleito em 1894, se encarregou de pacificar as turbulências revolucionárias herdadas dos governos militares, seu sucessor, Campos Sales, incumbiu-se de recuperar a economia do país. O objetivo era apresentar para grandes potências uma imagem de governo sólido e estável, e assim atrair investimentos. Campos Sales renegociou a dívida externa com sucesso às custas de um processo de deflação e de arrocho da economia interna. O ministro da Fazenda da época, Joaquim Duarte Murtinho, estabeleceu medidas econômicas com conseqüências sociais drásticas: demissões de funcionários e operários, suspensão de serviços e pagamentos, maior carga tributária. Essas determinações atingiram a população mais pobre, que já sofria com o desemprego e o alto custo de subsistência, e provocaram diversos motins populares. O setor beneficiado pelas novas medidas econômicas foi o da cafeicultura paulista, consolidando a hegemonia deste grupo sobre os demais setores nacionais.

Rodrigues Alves considerava, contudo, que não era bastante pacificar as rebeliões regionais e estabilizar a economia para conseguir recursos estrangeiros para o Brasil: precisava superar ainda outros obstáculos, como ampliar o porto do Rio de Janeiro, incompatível com as atividades econômicas da época, e revitalizar a própria estrutura da cidade cujas ruas estreitas e tortuosas, tipicamente coloniais, dificultavam o transporte de mercadorias. Tornou-se imprescindível para o projeto governamental o melhoramento do porto e a remodelação urbana do Rio de Janeiro, projeto que, de acordo com Sevcenko, foi drástico e de terríveis conseqüências.

O presidente iniciou a execução de seu projeto indicando Lauro Müller para a reforma do porto e delegando-lhe poderes e recursos ilimitados. Pereira Passos foi nomeado prefeito do Distrito Federal e encarregado das obras de embelezamento e salubridade. Através da lei de 29 de dezembro de 1902, arbitrária e anticonstitucional segundo a oposição, o prefeito recebeu poderes absolutos. O autor utiliza a citação de Afonso Arinos de Melo Franco, um jurista e biógrafo da administração de Rodrigues Alves, para demonstrar o alcance desses poderes: “Começava por adiar por seis meses as eleições para a Câmara Municipal, o que vinha deixar ao prefeito, desde logo, as mãos livres de qualquer algema oposicionista [...]. o artigo 23 completava a disposição, pois, segundo ele, quando se tratasse de demolição, despejo, interdição e outras medidas, haveria apenas um auto afixado no local, que previa penalidades contra as desobediências. Daí vieram os numerosos casos de demolição, com famílias recalcitrantes ainda dentro dos prédios.” (SEVCENKO, 2001, p. 46). Rui Barbosa foi um dos poucos que alertou a elite política sobre as prováveis conseqüências dessas atitudes demasiadamente enérgicas, que provavelmente seriam extremamente desagradáveis para a população.

Havia ainda um terceiro ponto: os surtos de doenças como febre amarela e varíola. Sevcenko alega que a cidade era conhecida internacionalmente como “o túmulo dos estrangeiros”, de forma que muitos visitantes não desembarcavam por precaução (SEVCENKO, 2001, p. 40). As campanhas para a erradicação das endemias tomaram o mesmo curso autoritário das reformas urbanas, com Oswaldo Cruz assumindo a coordenação do projeto sanitário da capital e recebendo plenos poderes para cumpri-lo. A oposição chegou a chamar suas campanhas de “ditadura sanitária”, referindo-se à lei que permitia a invasão, fiscalização e demolição de casas ao mando do agente sanitário, e que estabelecia foro próprio para evitar qualquer tipo de resistência da parte da população. Esta lei da obrigatoriedade fortalecia ainda mais a força dos agentes: a população estava sob o capricho dos funcionários públicos. Sevcenko sintetiza essa situação da seguinte forma: “Se alguém escapara dos furores demolitórios de Lauro Müller e do prefeito Passos, não teria mais como escapulir aos poderes inquisitoriais de Oswaldo Cruz” (SEVCENKO, 2001, p. 53).

Para o autor, era iminente uma reação da parte da população, cada vez mais indignada com a opressão generalizada. É a extensão dessa opressão arbitrária que é o tema do terceiro capítulo, “O processo de segregação: agonia”.

No final do século XIX e inicio do século XX, a população crescia no Rio de Janeiro. Boa parte desse aumento se devia ao grande influxo de pessoas vindas das fazendas arruinadas após a abolição, à procura de trabalho e moradia.

Este aumento populacional acelerou bruscamente o processo de metropolização da capital. Segundo o autor, a conseqüência direta desse crescimento foi a rápida degradação da cidade, com diversas moradias centrais sendo transformadas em cortiços de aluguel barato e higiene precária, onde se amontoavam famílias inteiras. A reforma financeira de Campos Sales agravou a situação ao ameaçar a economia de iniciativas privadas, como pequenos negócios e fábricas, em favor da produção de café. O resultado foi que na capital, onde a população estava muito mais envolvida com o primeiro tipo de economia, os empregos diminuíram e os preços dispararam. A crise econômica interna atingiu em cheio a população mais pobre da cidade, e o resultado foi uma situação social cada vez mais tensa, com a escalada da atividade criminosa.

O governo e suas instituições eram fracos diante dos motins, e sua inabilidade em lidar com o crescente descontentamento da população foi um dos elementos-chave no desencadear da insurreição. A oposição, por sua vez, compreendeu a força desse sentimento de revolta e foi talvez a grande responsável por transpô-lo para o campo das ações, através da organização de comitês e manifestações públicas de protesto. Contudo, também subestimou o povo ao pensar que conseguiria manobrá-lo na direção que desejasse, e quando a revolta popular tornou-se mais intensa, os líderes da oposição deram lugar a lideres populares, como o famoso Prata Preta.

Sevcenko argumenta também que as reformas do governo de Rodrigues Alves agravaram ainda mais a situação ao atingir os populares de diversas formas e em diferentes âmbitos, servindo, muitas vezes, a mais de um propósito. O alargamento das ruas, por exemplo, além de exigir a demolição de centenas de moradias, tornava a construção e manutenção das barricadas mais difíceis, ao mesmo tempo em que permitia maior mobilidade e liberdade de estratégia às forças de repressão; talvez por isso, propõe o autor, a Revolta da Vacina tenha sido o “último motim clássico no Rio de Janeiro” (SEVCENKO, 2001, p. 58). Sevcenko também conclui que a desapropriação forçada das moradias das camadas mais pobres da cidade, quer fossem motivadas pelas reformas urbanas ou pelas ações dos agentes sanitários, fazia parte de um projeto elitista de limpeza social e urbana, chamada pela imprensa conservadora de “Regeneração”. A demolição dos imóveis fez com que a população deslocada migrasse para a periferia da cidade, onde foram construídos novos cortiços. Porém, como o preço da moradia aumentasse cada vez mais, o destino final dos que não podiam pagar era quase que invariavelmente o assentamento em locais impróprios para a habitação, como morros e mangues, ou a participação em atividades ilegais. Por isso, segundo o autor, o levante da Vacina não apresentava um plano político popular: era um grito de revolta de uma população cada vez mais oprimida pela burguesia dominante que controlava o governo.

O último capítulo do livro, intitulado “A repressão administrativa: terror” é uma análise do tipo de repressão desencadeado pela Revolta da Vacina e a sua repercussão. O autor se baseia em depoimentos da época para descobrir uma repressão brutal e intransigente, dirigida contra pessoas que, em sua maioria, não possuíam emprego, moradia ou documentos. A punição dos acusados não se baseou numa investigação de sua participação real no motim; foi, na verdade, encarada pela polícia como uma oportunidade para remover da cidade reformada as pessoas “indesejadas” e potencialmente turbulentas.

Visando legitimar a radical repressão, os relatórios das autoridades tratam sempre os revoltosos como vagabundos e desordeiros, inimigos crônicos da ordem. Em contraposição ao julgamento das autoridades, é apresentado por Sevcenko um depoimento de Lima Barreto onde ele afirma que a composição dos revoltosos era a mais variada possível, tratando-se de pessoas com diferentes profissões e de diferentes posições sociais. (SEVCENKO, 2001, p. 67)

O autor estabelece uma relação entre a discriminação dos corpos - corpos sãos, corpos doentes, corpos rebeldes – e a nova disposição geográfica da cidade, segundo a qual a massa popular, considerada de uma maneira geral como doente, foi empurrada para os morros e subúrbios, onde também foi instalado o parque fabril da cidade. O local onde outrora estas pessoas viveram, o centro, fora reformado e tornara-se a área de lazer da burguesia, onde ela reproduzia os padrões sociais europeus. Foi este, argumenta o autor, o momento da implantação do estilo de vida burguês, no qual o “mundo do trabalho” está separado do “mundo do ócio”. Segundo Sevcenko, o sucesso posterior da campanha de vacinação e do processo de “Regeneração” na implantação desta nova ordem social urbana é encarado pelos representantes da elite como um processo pelo qual se redime o “atraso” do país, tendo como modelo as sociedades européias. Cria-se a partir daí uma noção de divisão da sociedade entre “doentes” e “sãos”, onde caberia aos últimos dirigirem o país apesar dos primeiros. É essa a base para a difusão da idéia, até hoje popular, da apatia do povo brasileiro em relação ao trabalho e à política, que foi usada para justificar, entre outros, a necessidade de imigrantes “adequados” para a nova sociedade. Sevcenko ainda argumenta que o tipo de repressão utilizado na Revolta da Vacina representa um fator de continuidade entre a antiga sociedade senhorial e a nova republicana: “Nesse momento de transição brusca e traumática da sociedade senhorial para a burguesa, muitos dos elementos da primeira foram preservados e assimilados pela segunda: sobretudo no que diz respeito à disciplina social” (SEVCENKO, 2001, p. 80) .

O autor conclui, por fim, que a Revolta da Vacina foi resultado de um processo complexo de aburguesamento e cosmopolitização da sociedade brasileira, que discriminava e submetia os grupos destituídos ao controle social através da opressão: “Sua reação não foi contra a vacina, mas contra a história. Uma história em que o papel que lhes reservaram pareceu-lhes intolerável e que eles lutaram para mudar” (SEVCENKO, 2001, p. 83).

Ainda que reitere algumas das visões tradicionais sobre alguns aspectos da revolta, como a ausência de um plano político popular durante a insurreição, o livro de Sevcenko difere de outros estudos sobre o mesmo tema em vários pontos.

O autor alega, na introdução, que um de seus objetivos é incitar uma maior reflexão sobre o custo social e humano das transformações desencadeadas pela nova ordem político-econômica em ascensão no país. Para enxergar os eventos de 1904 sob um ângulo mais próximo do popular, ele dá ênfase a fontes menosprezadas em outros estudos que constam em sua bibliografia. São fontes como artigos da imprensa e testemunhos de contemporâneos, em especial os do intelectual Lima Barreto, cuja utilização como fonte histórica o autor já havia defendido em seu livro “Literatura como missão” (SEVCENKO, 1999, p. 68).

Sem dúvida, estas fontes permitem uma nova perspectiva sobre a natureza e o desenrolar do levante popular, abordando pontos que não podem ser compreendidos através da análise meramente quantitativa. A contagem de mortos e feridos após a revolta, por exemplo, não é suficiente para compreender o que foi a repressão pós-levante que, segundo as fontes do autor, se estendeu durante dias; nem permite enxergar um quadro do caos urbano que era o Rio de Janeiro antes, durante e após a revolta.

Por outro lado, estas fontes tendem por vezes a pecar pela parcialidade e dramaticidade. Os jornalistas da época certamente seguiam sua própria agenda ao pintar certas notícias com cores mais ou menos fortes ou ao escolher o que publicar e o que omitir. Os testemunhos pessoais são ainda mais suscetíveis à subjetividade dos seus autores: Lima Barreto, por exemplo, tinha imenso desdém pelo sistema republicano que havia, entre outros, desempregado seu pai (SEVCENKO, 1999, p. 125). O resultado é a presença, no texto, de uma crítica fortemente anti-burguesa que muitas vezes parece exagerada, e que somada ao tom emotivo adotado por Sevcenko (reconhecido e escusado pelo mesmo na introdução do livro), torna o leitor mais cauteloso quanto às informações adquiridas.

O livro consegue, contudo, fazer-nos questionar nossa própria visão sobre o que aconteceu no Rio de Janeiro em 1904. Ao focar não as permanências políticas, mas as rupturas sociais trazidas pelo novo governo, Sevcenko consegue construir uma atmosfera na qual vemos, em apenas 15 anos, um processo de transformação social firme, projetado e liderado pela elite, que atropela as classes mais pobres. Não é tão importante, neste caso, se o leitor concorda com seu ponto de vista ou não, mas sim que este é pertinente o suficiente para gerar diversos questionamentos sobre o que conhecemos tradicionalmente como revolta, mas que nos é apresentado, no livro, em termos mais próximos de uma guerra civil.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

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SEVCENKO, Nicolau. A Revolta da vacina: Mentes insanas em corpos rebeldes. Scipione, São Paulo, SP, 2001.

SEVCENKO, Nicolau. Literatura como missão: tensões sociais e criação cultural na Primeira República. Brasiliense, São Paulo, SP, 1999.

sábado, 1 de maio de 2010

VILLA, Marco Antonio. Conclusão: o significado de Canudos e Apêndice: Euclides da Cunha e Canudos. In: ________Canudos: o povo da terra. 3ª ed. São Paulo: Ática, 1999.

Alex Moura
Aluísio Gomes
Ático Soares
Gabrielle Lucena
Ermano Oliveira
Tásso Araújo

Várias foram as interpretações sobre a Guerra de Canudos, desde a do médico Raimundo Nina Rodrigues e o clássico de Euclides da Cunha à historiografia mais recente. O autor procura antes de colocar sua posição sobre o sentido de Canudos explicar tais argumentações, refutando-as, e trazendo questões para repensar o arraial do sertão baiano.
Os escritos de Euclides da Cunha colocam a comunidade liderada por Antonio Conselheiro como sebastianista, ideia que fazia dos conselheiristas defensores da restauração monárquica, já que o termo era usado para designar monarquistas. Não havia, como o sebastianismo pressupunha, a espera de alguém que salvaria o arraial. Villa coloca que a influência religiosa deve ser vista como o maior peso na formação da comunidade, com as reflexões teológicas de Conselheiro sendo bastante tradicionais.
As abordagens marxistas também apresentam problemas. Edmundo Moniz enxerga um socialismo utópico com influência de Thomas More, Fourier, dentre outros; opõe o Estado burguês latifundiário à comunidade socialista. Décio Saes, por sua vez, diz que o arraial era “adversário da escravidão” , mas sua experiência malogrou porque não havia relação com comunidades vizinhas. Rui Facó defendia que a religião é um invólucro para cobrir um fundo perfeitamente material.
Portanto, a luta sertaneja precisava se encaixar na teoria. Os marxistas encaravam a religião como “uma fachada que encobria as razões de ordem material: era a falsa consciência” . O autor refuta a visão marxista. Não havia circulação de obras como as de Thomas More no sertão; os sertanejos tinham condições de propor um modelo de sociedade baseado em seus próprios códigos sociais, não necessitando de inspiração europeia; havia propriedade privada; estabeleceu-se comunicação com comunidades vizinhas; e não podia existir luta contra a escravidão, já que a fundação de Canudos é de 1893. Canudos tinha suas especificidades e ia se consolidando como sociedade baseada, sobretudo, na vivência religiosa.
Também não se pode afirmar um milenarismo. A possibilidade de uma época em que todos os males seriam redimidos estava descartada, seus habitantes não se consideravam eleitos. Além disso, não há referência de liderança messiânica de Antonio Conselheiro e muito menos milagres, ideia comprovada com a entrevista feita por Euclides da Cunha feita com um garoto morador do arraial.
Outra visão analisada por Villa era aquela que opunha o sertão, inculto e incivilizado e litoral, civilizado e progressista colocada em Os sertões. Euclides da Cunha era de opinião que o sertanejo não possuía capacidade suficiente para escolher entre monarquia e república. Para Nina Rodrigues a guerra foi importante para incorporar o sertão à civilização, já que o sertanejo é monarquista e ainda seria por muito tempo devido à falta de capacidade mental para entender que naquele momento seriam guiados pela lei.
Canudos como quilombo. Quando da fundação da comunidade, a escravidão já havia sido abolição fazia cinco anos; além disso, apenas 14% da população do arraial era negra. Esta visão é carregada de anacronismo porque nega “a identidade da comunidade e sua importância na história do Brasil, só que agora travestida de uma visão supostamente radical” .
Convêm algumas questões. A população de Canudos tinha condições de “decidir” entre monarquia e república? Ou seriam monarquistas porque estavam realmente num estágio mental inferior? Até que ponto se pode discutir o peso de um dos dois sistemas para o arraial? Para Villa a religiosidade é o principal fator de coesão na comunidade.
A tese do autor é de que Canudos aparece como uma alternativa ao sertanejo, dentro dos códigos sertanejos, onde a cidadania era exercida com a proposta e construção de uma nova sociedade, abandonada pelo poder público, distante da Igreja, e à mercê dos grandes proprietários de terras. Era uma comunidade oprimida por todos os lados.
Canudos tinha adeptos fora do arraial, o que assustava as autoridades republicanas; já havia mais conselheiristas fora do que dentro da comunidade. O medo se espalhara na Bahia e chegou à capital da República, Canudos poderia ser o Brasil de dentro. Representava uma ameaça à unidade que a nova situação política pretendia dar ao país e a dizimação de cerca de 25.000 conselheiristas foi – para a manutenção do sistema – necessária.
Nem monarquista nem republicana. Canudos era uma alternativa para uma região abandonada pelo centro e necessitada de uma organização política e econômica, “significou a negação radical de uma sociedade marcada pelo racionalismo cientificista, pelo mandonismo e pela lógica do capital.”

Apud VILLA, Marco Antonio. Canudos: o povo da terra. 3ª ed. São Paulo: Ática, 1999, p. 238.
Marco Antonio. Canudos: o povo da terra. 3ª ed. São Paulo: Ática, 1999, p. 238.
Idem, p.243.
Ibidem, p.244.

Resenha: GALVÃO, Walnice Nogueira. O Império do Belo Monte: Vida e morte de Canudos.

Resenha: GALVÃO, Walnice Nogueira. O Império do Belo Monte: Vida e morte de Canudos. – São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2001.

Alisson Pessoa
Carla Mendonça
Deuzuwilma Galvão
Gabriela Lima
Juliana Leite
Wheldson Marques
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Wanilce Nogueira Galvão em seu livro "O Império do Belo Monte" abordará o tema de Canudos, fenômeno que ocorreu no interior do Nordeste brasileiro e que acompanhou as transformações políticas por que passava o Brasil no final do século XIX, a partir da instituição da República. Objeto de análise ainda será a figura do líder religioso do movimento, Antonio Conselheiro, indivíduo que fornecera toda a fundamentação ideológica no decorrer dos acontecimentos, mobilizando um número consideravelmente grande de indivíduos através de suas pregações e obras.
A autora inicia a obra descrevendo a trajetória do empreendimento colonizador, do povoamento do sertão brasileiro – cenário do conflito – e da paisagem sertaneja, mostrando como esses processos tiveram influência na formação do estereótipo do sertanejo (forte, corajoso, ingênuo) e na idéia do sertão como uma terra sem lei, em oposição à cidade litorânea civilizada.
O empreendimento colonizador – no que se refere à plantação de cana-de-açúcar para atender ao mercado europeu – mais as incursões exploratórias (entradas e bandeiras) tiveram um papel crucial no povoamento do interior do país. As terras próximas ao litoral eram utilizadas para produção agrícola devido sua fertilidade e proximidade com os portos. Assim, a criação de gado teve que adentrar pelo interior. Já as entradas e bandeiras tinham como objetivo inicial a escravização indígena e posteriormente a prospecção de minas de metais e pedras preciosas, e para isso tiveram que penetrar um vasto território.
No tópico "A palavra sertão", a autora faz uma breve análise etimológica da palavra sertão numa tentativa de desmitificar a idéia de "secura e infertilidade" da região atribuída por alguns estudiosos ao termo, como é o caso do historiador Robert M. Levine, para quem sertão vem de "desertão" e "implicava imagens de pessoas e lugares atrasados e pouco hospitaleiros" (LEVINE, 1995, p. 41). Galvão mostra que originalmente a referida palavra tinha como significado "mato", depois ampliado para "mato longe". Logo, o significado original não tem nenhuma ligação com o significado pejorativo atual. Walnice irá salientar a vasta diversidade de espécies na fauna e flora sertaneja e até mesmo a existência de bosques e veredas na região como forma de se contrapor ao argumento de sertão como apenas um "desertão".
O sertão e o resto do Brasil, de uma forma geral, foram dominados política e economicamente durante séculos por famílias latifundiárias patriarcais. Essa classe dominante disputava entre si votos dos eleitores, o controle político e até mesmo a posse de terras. A própria família de Conselheiro tornou-se vítima dessa disputa; fato que foi relatado por João Brígido, jornalista e amigo de infância de Conselheiro, em artigos publicados sobre Antonio e sua família. Como se pode verificar, a autora freqüentemente recorre aos artigos de Brígido para falar sobre a vida do Conselheiro.
Antonio Conselheiro nasceu em Quixeramobim e, após a morte de seu pai, contraiu matrimônio. Mudou por algumas vezes de cidade e de emprego. Trabalhou como escrivão de paz, requerente de fórum; cargos que exigiam instrução. Na opinião de Brígido é a partir desse momento que Conselheiro acabou por perder a razão. Segundo o cronista, o pai de Antonio tinha surtos de demência e mesmo o próprio Conselheiro já havia dado sinais de desequilíbrio durante a infância. "A loucura, portanto, já viria da família, e seu veredicto a respeito é que ele se tornou um monomaníaco", diz Walnice (2001, p. 22). A afirmação de loucura, uma monomania, daria margem a interpretações sobre o modo como Conselheiro escolhera viver, sua determinação na fé e a vida regrada na penitência e caridade.
Ao contrário do que se possa imaginar o Conselheiro era um homem bem quisto nos sertões por onde vagava, e, do ponto de vista religioso, a idéia de que teria criado uma seita não é muito justificada. Seus seguidores, a exemplo dos demais sertanejos, praticavam um tipo de catolicismo que elegia pequenas divindades a quem recorriam para resolução de problemas cotidianos, prática muito comum a todas as grandes religiões. Essas pequenas divindades são os santos. Além disso, essas pessoas humildes, desesperançadas em sua vida de miséria e humilhação, costumavam eleger certas personalidades, a quem atribuíam uma capacidade de esclarecimento ou uma fé maiores que a sua própria, guias espirituais. Eram os Beatos e Conselheiro – por vezes até padres ordenados – por que Antonio Maciel não era o único que vagava pelos sertões promovendo festas, batizados e reformas, e bradando seus conselhos para uma legião de fiéis. Embora houvesse muitos desses pregadores pelo sertão, cujos bandos surgiam e desapareciam, Edmundo Moniz, numa postura que lembra a de Walnice, chama a atenção para o movimento do Peregrino, por ser o único que alcançou tanta notoriedade, ele atribuiu isso às promessas de uma vida longe de humilhações e explorações; o povo acorria a esse homem por ver nele a esperança de uma vida mais justa e igualitária (MONIZ, 1982, p. 27). Esse era o perigo que as autoridades viam nele. Levine, por sua vez, sugere atribuir ao messianismo e à penitência a responsabilidade pelo "apelo carismático que suas palavras exerciam sobre grande parte do seu rebanho" (LEVINE, 1995, p. 276). Não é de se espantar que, em condições adversas, as pessoas se apeguem com tanta força à religião e que esta constitua, nas palavras da autora, "uma religião festiva" (GALVÃO, 2001, p. 44). Mas é intrigante perceber todo o simbolismo que sustentava e ligava aquela população e que convergia para a figura de Conselheiro. Galvão fala de um verdadeiro centro de romarias formado em Canudos.
No entanto, essa prática religiosa permeada de crendices e superstições vai ser combatida pela igreja a partir da romanização da religião após o Concilio de Trento na segunda metade do século XIX. São enviados padres como o Ibiapina com o intuito de reeducar os fiéis, mas as suas ações acabam por fazer com que o povo, a exemplo do que ocorreu com o Conselheiro, o idolatre, o que culmina com seu afastamento das funções religiosas. Não ministravam sacramentos posto não serem ordenados, mas suas recomendações eram seguidas à risca, inclusive por integrantes das elites locais, como o Coronel Janjão (João Evangelista) de Juazeiro ou José Leitão, chefe político da região de Santa Luzia, por exemplo. Essas pessoas costumavam assistir o Conselheiro e seu séquito por meio de doações ou apoio durante a guerra e o convidavam, inclusive, para pregar em suas terras na impossibilidade de ir até ele.
Um pequeno jornal em Estância, Sergipe noticia em 1874 o boato a respeito do matricídio e uxoricídio, como justificativa para sua vida penitente, meio pelo qual ele buscaria expiar seus crimes. Essa notícia repercutiu e foi a causa de sua prisão em 1876. Ao chegar a Quixeramobim ficou provado que não pesava contra ele nenhuma acusação. Ataliba Nogueira, citado por Moniz (1982, p. 17), admitia que o único motivo para sua "vida andeja" era a procura de sua mulher e do sedutor que junto com ela tinham-no traído, para puni-los, mas como João Brígido asseverava que ela estivesse esmolando em Sobral após ter sido abandonada pelo amante, ele sabia onde ela estava e não precisava procurá-la pelos sertões. Mas a imagem do matricida e uxoricida de cabelos desgrenhados e camisolão de brim já tinha chegado inclusive à capital do país.
Apesar dos boatos, e de sua postura de antifanatismo, o Vaticano, a priori, tolerava a fama de santo do Conselheiro por que os donativos que arrecadava, em geral, eram revertidos para seus cofres. Sem falar das reformas que promoveu a igrejas e cemitérios em suas andanças. Os fiéis encaravam como penitência carregar pedras na cabeça e "promover a messe" através da construção da Casa de Deus. As autoridades locais, apesar de temerem sua popularidade e poder de convencimento junto à população, também "faziam vista grossa", visando os benefícios obtidos com o restauro de açudes, praças e outras obras públicas com mão-de-obra gratuita: os penitentes. Durval Vieira de Aguiar, chefe do Corpo Policial da Bahia, apesar de no geral considerar Conselheiro um "fanático ignorante", já advertia as autoridades da fidelidade do povo para com ele, dizia que em um enfrentamento haveria muito derramamento de sangue, afinal, além da admiração dos fiéis, contava com toda a questão do compadrio, que consistia numa considerável rede de influência e tinha uma importância fundamental naquele contexto social, fornecendo ainda mais aderência e força à luta em Canudos. Para o povo do sertão o compadre é alguém da família, a quem se devem obrigações e fidelidade, e na região quem não era compadre ou parente do Conselheiro, era um de seus seguidores. As pessoas liquidavam seus pertences e partiam rumo ao arraial deixando tudo o que haviam construído para trás, atendendo ao chamado de parentes e compadres já estabelecidos naquela cidadela.
Mas o que, segundo a historiadora, vai ser o motivo da fixação de Conselheiro na região de Canudos, depois de quase duas décadas de vida errante no sertão, é o ato que promove em várias cidades da Bahia, onde queima tábuas com editais dos novos impostos republicanos, o que resulta na Refrega de Masseté, episódio no qual um contingente de 36 homens é derrotado por ele e seu séquito. Ele justifica que, no caso de sua prisão em 1876, não opôs resistência por reconhecer o poder do Império, mas, no caso da Refrega em 1893 não se renderia a represália da República por não reconhecer seu poder de mando.
O peregrino e seu séquito de fato se estabelecem e, ao que indicam as fontes, passam de uma postura passiva a um comportamento mais agressivo ante as investidas das quais eram alvo. Conselheiro não reconhecia a República nem, portanto, sua lei e, sentindo a iminência de conflitos de maior vulto, ele e seus seguidores organizam-se "como se tivesse soado um toque de recolher" (GALVÃO, 2001, p. 42).
Nas terras em que se assentam os fiéis, próximas a várias estradas, já havia um povoado e nelas se desenvolvem atividades econômicas cujo fim era prover a subsistência dos próprios e que, devido às duras condições, constituem-se de forma rudimentar. Contudo, a autora aponta que entre os seguidores miseráveis havia quem se agregasse à causa com o objetivo de prosperar – caso dos comerciantes – pressentindo o aumento da população.
A partir de fontes como a produção de Euclides da Cunha, Galvão traça o perfil daquela estrutura que era o Belo Monte. Enfatiza a precariedade existente em termos de urbanização e a curiosa visão de um aglomerado de casebres espalhados de forma aleatória onde não existia propriedade privada da terra, indicando ser isto fruto da grande quantidade de pessoas que chegavam para ouvir as pregações de Conselheiro e que lá passavam a viver, também por absorver a causa do peregrino.
A organização social do arraial é outro ponto de interesse da autora. Havia todo um sistema montado e que funcionava de fato, ainda que a seu modo, dado o período e as circunstâncias sobre as quais teria sobrevivido. Dentre as funções desempenhadas em Canudos havia a da Guarda Católica e seus 12 apóstolos, empenhados em proteger Conselheiro. Contava-se ainda com uma espécie de líder militar e um civil. Antonio contava com uma mordoma para a administração da sua residência e à educação das crianças do arraial havia uma professora.
Galvão discorre ainda sobre algumas figuras que tiveram um papel importante na peleja liderada por Conselheiro. Alguns morreriam em batalha, outros abandonariam a causa após a morte do líder e retomariam suas vidas. Houve quem continuasse fiel aos ideais construídos em Canudos. Muitos homens se destacaram por suas habilidades em batalha, ou por suas proezas enquanto aventureiros em busca de prosperidade, ou ainda pela bravura e certeza de conduta, como foi o caso do sineiro Timotinho (GALVÃO, 2001, p. 50). Mas a autora reserva um tópico que apresenta Jesuíno Correia Lima, mascate que fora expulso do arraial e teve seus bens pilhados por conta de seus antecedentes republicanos (ocupara os postos de juiz de paz e de capitão da Guarda Nacional). Ressentido, acabaria por denunciar Conselheiro e o séquito, servindo ainda de instrumento – torna-se o guia – na busca empreendida contra Canudos. Este caso ilustra bem a intolerância e até a aversão a tudo o que tenha ligação com a República, sentimentos nutridos pelo povo de Canudos: os conselheiristas.
Com o decorrer do tempo, a existência de Canudos colocava em alerta tanto a oligarquia local quanto a Igreja Católica, que representavam as duas maiores forças políticas da época. As razões que levaram a oligarquia a temer Canudos foram, principalmente, a escassez da mão de obra, o que poderia ocasionar a desestruturação da propriedade privada, além do medo da invasão de terras pelos conselheiristas. Já a Igreja, na tentativa de reaproximação com o povo através do processo de romanização, viu em Canudos a ameaça de perder seus fiéis para determinados líderes populares carismáticos e do surgimento de novas religiões. Diante dessa situação o governador solicita uma medida da Igreja que, por sua vez, envia dois frades capuchinhos em 1895 em missão de observar a real situação de Canudos. Por diversos dias eles observaram as precárias condições de vida dos peregrinos e constataram que o poder público devia intervir no local. Instalou-se então um clima de tensão entre Canudos e as demais autoridades. O confronto se deu devido a um juiz que proibiu a entrega de materiais para a construção da Igreja Nova. Assim houve a deflagração da guerra.
No ano de 1896 foi enviada a 1º Expedição, que contava com efetivo de 120 homens, a fim de atacar Canudos. Os peregrinos foram avisados e conseguiram surpreender os soldados. Neste combate ocorreu um número alarmante de mortos por parte dos conselheiristas, seguidas de um incêndio provocado pelo exército. Na 2ª Expedição as forças do exército já contavam com 600 homens bem armados, com bastante munição e até canhões. Os conselheiristas ainda tiveram tempo de se preparar. Receberam as tropas com fogo de piquetes e, apesar da desvantagem, conseguiram cercar o exército, que recebeu ordem de retirada. Depois de dois erros sucessivos a 3º Expedição contou com o apoio do Governo Federal e aumentou o seu contingente para 1.300 homens e seis canhões. Após horas de combate o comandante da expedição sai ferido e as tropas começam a debandar, deixando para trás armas, munições e canhões que seriam utilizados pelos conselheiristas durante o combate contra a 4º Expedição. Vale ressaltar que a partir da 3º Expedição o medo da população tomou dimensões maiores. Isso porque era inexplicável que o grupo de peregrinos tenha conseguido "vencer" três tentativas de destruição. Além disso, os jornais noticiavam absurdos sobre Canudos, utilizando-se dos meios de comunicação para a manipulação do povo. Extinguir Canudos era uma arma política. O sensacionalismo dos jornais, agitando a fantasia da restauração monárquica através de Canudos, contribuiu para exaltar o ânimo dos florianistas. Quem se lembraria, nesse momento de comoção nacional, das razões que deram início à guerra contra Canudos? Quem teria suficiente serenidade para reconhecer que Antonio Conselheiro e os seus seguidores estavam se defendendo e não atacando? Resistiria a qualquer análise mais sóbria a suspeita de que os monarquistas estariam tentando restaurar o antigo regime através de uma revolta no sertão baiano? Acusar Canudos de ser um reduto monarquista não era uma hábil manobra para esconder o fracasso das expedições militares anteriores e desviar a opinião pública? Não estariam porventura transformando os agressores em vítimas e os inocentes em culpados? (COSTA, 1990, p. 39). O presidente Prudente de Morais utilizou-se de argumentos alarmantes sobre o perigo da Canudos para montar a 4º Expedição. A tecnologia advinda da Revolução Industrial trouxe para esta batalha o trem, o telégrafo e o jornal. A quantidade de soldados era vertiginosamente maior. Some-se a isso uma estratégia bem elaborada com duas colunas iniciais, mais reforços trazidos por generais experientes, uma brigada de infantaria e 17 canhões puxados a tração animal. A quarta e última expedição contava com o efetivo de cinco generais e um marechal. No decorrer da luta a expedição sofreu graves problemas de abastecimento de víveres, munições e serviço de transporte, quase causando um desastre semelhante aos anteriores. Como a maioria dos soldados era inexperiente, Foram necessários três meses para instruí-los em Queimadas, o que deu tempo para que os canudenses reforçassem suas posições. Esse longo tempo de instrução logo provocou o desânimo nos soldados a entrar na peleja (COSTA, 1990, p. 43).
Apesar da sua superioridade, o exército se deparou em Canudos com táticas de guerrilhas. O exército sentia o confronto demorar mais do que o esperado e praticamente não via o adversário. No combate de 18 de julho uma parte do arraial foi tomada e em 07 de setembro tomou-se a Fazenda Velha. Dessa forma ocorreu a queda dos chefes de Canudos, inclusive Antonio Conselheiro. Em 1º de outubro acontece o ultimato: joga-se querosene e coloca-se fogo no arraial. Mesmo assim há ainda resistência. Em 03 de outubro, Antonio Beatinho, em missão de paz, negocia a rendição de Canudos. Depois do acordo traz cerca de 300 pessoas. Apesar das garantias estabelecidas, foram praticamente todos degolados. Relatos falam em quase 800 pessoas. Canudos resistiu até o dia 05 de outubro quando foram mortos seus últimos quatro sobreviventes. Antonio Conselheiro havia falecido doze dias antes da queda de Canudos, aos 69 anos de idade. Sua sepultura foi violada, seu corpo foi fotografado e sua cabeça enviada para a Faculdade de Medicina de Salvador, para ser estudada, já que se acreditava tratar-se de um louco. Segundo Ataliba Nogueira, na obra "Antonio Conselheiro e Canudos", a conclusão do Dr. Nina Rodrigues foi surpreendente para os que defendiam essa opinião: "o crânio de Antonio Conselheiro não apresenta nenhuma anormalidade que demonstre traços de degenerescência. É, pois, um crânio normal." (NOGUEIRA apud COSTA, 1990, p. 46).
O fim da guerra provocou reações indignadas. Isso porque se viu que Canudos nada tinha a ver com a volta da Monarquia e pelas atrocidades cometidas pelo exército. Chega-se à conclusão, juntamente com um sentimento de culpa generalizado, que a resistência de Canudos tinha apenas motivos religiosos e não políticos.
Após a guerra e a partir de 1909 alguns poucos sobreviventes voltavam e se instalavam de forma precária. Em 1930, com a construção da Transnordestina, alguns trabalhadores foram se instalando no arraial. Deu-se também a construção de um imenso açude, o que implicou no desaparecimento de Canudos. Em 1947 o jornalista Odorico Tavares escreveu uma matéria feita no arraial que despertou o interesse do historiador José Calasans, que fez várias viagens a Canudos para recolher depoimentos. A partir desse período, iniciaram-se novos estudos sobre Canudos, com a investigação de novas linhas. Tudo passou a ser questionado, desde a vida de Antonio Conselheiro até a posição tomada pela Igreja. Foram utilizadas as fontes orais e as reportagens feitas na época, além de relatos dos combatentes e relatórios do governo. Em 1969 foi concluída a barragem; os moradores oravam obrigados a deixar Canudos, fundando assim, às margens do açude de Cocorobói, o povoado de Nova Canudos. Conselheiro passou a ser um ícone de resistência dos oprimidos.
Na análise do que foi realmente a obra de Conselheiro e do que difundiam sobre ele há muitas divergências. Conselheiro tinha um caráter conservador, em nada divergindo da Igreja Católica. Na visão dele, há ricos e pobres, tendo que haver assim o espírito da caridade. O peregrino dava ênfase à propriedade, proibindo o roubo. Qualquer outra manifestação religiosa que não fosse a católica era vista como uma ameaça à Igreja. A única característica que divergia do conservadorismo referia-se à escravidão.
Canudos era relacionado com o sebastianismo, erroneamente utilizado como sinônimo de monarquismo. Nos relatos orais e estudos não é mencionado D. Sebastião; apenas nas poesias populares. Outra característica atribuída a Canudos é a de milenarismo. Tal teoria cai por terra se considerarmos que a comunidade se colocava fora da história. Por fim, o messianismo, esse sim pode ser levado em conta se partirmos da premissa de que constitui um movimento religioso que segue um líder carismático, neste caso, Antonio Conselheiro. Porém este líder jamais se intitulou de "o Messias" e não há registros desta aceitação por parte dos populares. O objetivo dos peregrinos era apenas "salvar a alma" em vida porque o resto do mundo estava condenado. A memória de Canudos após alguns anos foi sendo reavivada, principalmente devido à quantidade de trabalhos sobre o assunto. A Igreja, criando a Pastoral da Terra, passou a dar apoio aos moradores da localidade. Hoje se comenta sobre a semelhança entre o movimento de Canudos e o MST (até mesmo pela questão de assentamento de terras). Porém, as diferenças são bem claras: o objetivo de Canudos era tão somente a salvação da alma. O MST ocupa terras enquanto os peregrinos viviam isolados em Canudos. Por fim, a base dos conselheiristas era a religião, que os unia. Como desfecho, é claro, o esforço feito por essa população frente os desmandos de força política. Uma população pobre que em nome da fé decidiu lutar por uma estrutura social diferente. Ainda hoje o assunto desperta discussões. Uma das versões prestigia o significado histórico do episódio, entendido como uma luta do povo sertanejo contra a opressão, a miséria, o abandono, a politicagem e a intolerância. As interpretações de Euclides da Cunha persistiram durante muito tempo, mas seus conceitos não resistiram a outros argumentos. O jornal de Brasília, verificado através da Coordenação do novo movimento histórico de Canudos (Noventa anos depois... Canudos de novo. Salvador, 1987), em 12 de agosto de 1984, externou: "Canudos não foi um movimento de fanáticos e ignorantes, mas uma resistência coletiva sob a liderança de um homem que já era calejado na defesa dos oprimidos. Conselheiro era um líder popular e carismático que aglutinou o povo na defesa de seus direitos fundamentais de sobrevivência" (apud COSTA, 1990, p. 51).
Compreende-se o fenômeno de Canudos como um fôlego em defesa da salvação da alma, ou como um desejo coletivo por uma vida menos injusta e na qual não houvesse opressão e miséria? Diria que as duas coisas não se contradizem. Numa leitura dos sertanejos naquele contexto – e até na formação de sua auto-imagem – talvez esteja intrínseca a imagem da superação e da constante luta contra a adversidade, entendendo-se que, através da fé, todo o tipo de sofrimento e obstáculo é suportável. Canudos constitui um claro sintoma das desigualdades sociais existentes no Brasil do final do século XIX, mas também um forte símbolo de resistência popular e, devido a isso principalmente, atribui-se sua importância.
REFERÊNCIAS

COSTA, Nicole S. Canudos: Ordem e progresso no sertão. 11ª edição. – São Paulo. Editora Moderna, 1990.

GALVÃO, Walnice Nogueira. O Império do Belo Monte: Vida e morte de Canudos. – São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2001.

LEVINE, Robert M. O Sertão Prometido: O Massacre de Canudos no Nordeste Brasileiro, 1893 / Roberto M. Levine; tradução Monica Dantas. – São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1995.

MONIZ, Edmundo. Canudos: A Luta pela Terra. Editora Parma, São Paulo, 1982.