Avaliação crítica da resenha elaborada a partir dos textos: “Conclusão: o significado de Canudos” e “Apêndice: Euclides da Cunha e Canudos”, encontrados no livro de Marco Antonio Villa, intitulado “Canudos: o povo da terra”.
A resenha elaborada a partir dos textos de Marco Antonio Villa, encontrados na obra “Canudos: o povo da terra”, apresenta as seguintes características a serem comentadas e avaliadas: A proposta do trabalho era a de resenhar as seguintes partes do livro: “Conclusão: o significado de Canudos” e “Apêndice; Euclides da Cunha e Canudos”. No entanto, a resenha apenas se dedica à parte que diz respeito à Conclusão, excluindo todo o conteúdo que descreve e analisa a trajetória de Euclides da Cunha, desde sua permanência no acampamento militar de Canudos até a publicação de Os sertões e suas repercussões. Na apresentação em sala, porém, esta última parte é abordada e discutida. Com relação à escrita o grupo cometeu pequenos deslizes de ordem lingüística na construção do texto: “(...) ideia comprovada com a entrevista feita por Euclides da Cunha feita com um garoto morador do arraial” (grifo nosso); “a escravidão já havia sido abolição (...)” (grifo nosso). No trecho: “onde a cidadania era exercida com a proposta e construção de uma nova sociedade, abandonada pelo poder público, distante da Igreja, e à mercê dos grandes proprietários de terras” a impressão formada é de que se atribuem justamente a esta “nova sociedade” todos os aspectos negativos mencionados (provavelmente quem não leu o texto de referência não compreenderia bem a passagem). No que diz respeito à objetividade e fidedignidade, julgamos que o grupo soube identificar e abordar todos os pontos importantes do texto (obviamente no tocante à conclusão do livro). Apesar de sugerir concordância com a tese do autor, a resenha é deficitária com relação ao posicionamento crítico do grupo, pela escassez de justificativas que fundamentem tal concordância ou abordagens que contemplem outras questões, à exceção do que foi discutido em sala sobre a religião como alternativa. As idéias estão bem relacionadas na construção do texto, mas o grupo simplesmente não recorreu à historiografia – ou não utilizou outras obras – para debater os posicionamentos do autor diante do tema, resumindo-se a transcrever ou comentar as citações encontradas no próprio texto a partir do qual produziram a resenha. Por fim, no tocante às normas da ABNT também foram encontradas algumas falhas. Na NBR 6023:2002, item 9, constam as regras para a ordenação das referências, indicando que “as referências dos documentos citados em um trabalho devem ser ordenadas de acordo com o sistema utilizado para citação no texto, conforme NBR 10520.” Na resenha, contudo, apesar de constarem, no final do trabalho, as informações sobre as referências, não se estabelece a relação entre estas e os próprios trechos citados no decorrer do texto. Utilizar aspas, simplesmente, não é suficiente para identificar com precisão a que referência determinado trecho remete. O ideal, neste caso, seria utilizar o “Sistema alfabético” (item 9.1 da NBR 6023:2002) ou o “Sistema numérico” (item 9.2 da NBR 6023:2002). A sensação, ao ler a resenha, é de que o texto base não foi suficientemente debatido entre o grupo que a produziu – fato que foi reforçado pela apresentação em sala, constantemente marcada por opiniões discordantes entre alguns dos integrantes – e que a própria edição do trabalho para postagem não foi feita com cuidado e atenção. Apesar dos aspectos negativos verificados na resenha, acreditamos que a leitura do texto e a apresentação em sala do trabalho cumpriram o papel de contribuir para os debates sobre o Brasil no período de estabelecimento da República e, portanto, atribuímos nota 7,0 ao grupo.
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O filme Canudos, eu encontrei no YOUTUBE para que vocês possam assistir online. Pra quem quiser, posso baixá-lo do youtube e juntar as partes, fazendo um filme só. Ou quem quiser é só baixar esse programa, muito bom chamado REAL PLAYER SP. Por ele você baixa qualquer video da internet apenas clicando numa caixinha que fica em cima do filme no canto direito escrito: CLIQUE AQUI PARA FAZER O DOWNLOAD. Abaixo segue o filme no youtube 1° Parte http://www.youtube.com/watch?v=yZpLGnC21l0&feature=related 2° Parte http://www.youtube.com/watch?v=YQyzIZNJ1aM&feature=related 3° Parte http://www.youtube.com/watch?v=zPobuxyfJsk&feature=related 4° Parte http://www.youtube.com/watch?v=q3QjC2ETPQE&feature=related 5° Parte http://www.youtube.com/watch?v=6Vew2OjIC_M&feature=related 6° Parte http://www.youtube.com/watch?v=s3AZ9FfxvKg&feature=related 7° Parte http://www.youtube.com/watch?v=k7wqQNICd4U&feature=related
E aqui achei um link que diz ser do filme sonhos tropicais, e eu ainda to baixando,então se alguem for baixar antes de eu terminar o download e for um filme diferente,me desculpe, eu tiro em seguida. Só clicar aqui.
Caso eu encontre o documentário citado, eu posto aqui depois...
Aula passada eu fiquei de postar informação aqui sobre alguns filmes. Um deles é o Sonhos Tropicais, de 2001, que fala sobre a revolta da vacina. Não achei o trailer, achei apenas essa edição de algumas cenas que já dá pra ver que o filme tem um tom meio didático:
Estou tentando baixa-lo, mas está demorando um bocado. Quem quiser o filme, pode tentar via torrent. também achei um link para download via programas P2P aqui, mas eu não faço idéia de como isso funciona hahaha.
Este está me dando uma bruta dor de cabeça pois não acho pra download em lugar nenhum, se alguém achar, por favor, divida conosco!
Sobre o livro O Cortiço, que também foi citado, eu vi que há uma adaptação para o cinema de 1978, com Betty Faria. Também não achei trailer, mas achei um resumão do enredo do livro com cenas do filme:
Por fim, quero dividr com vocês minha singela homenagem ao dr. Oswaldo Cruz, personagem central no drama da revolta da Vacina. Descanse em paz!
Em As Barricadas da Saúde, Leonardo Pereira tenciona interpretar a revolta da vacina a partir das perspectivas dos agentes diretos desse episódio: em sua maioria, trabalhadores de diversas regiões do Rio de Janeiro, mostrando que eles tiveram papel fundamental no processo da revolta. Para tanto, faz uma reflexão sobre a densidade da desigualdade social da região, amparada sob as bases de uma relação senhorial desfeita recentemente, onde a dicotomia e a mistura entre senhores e escravos geravam profundas fissuras sociais, raciais e culturais. Entretanto, as tensões sociais não se baseavam apenas nas questões da antiga sociedade monárquica, mas adquiriam uma gama de novas características, colocando em conflito indivíduos de um mesmo grupo social. A elaboração de novos conhecimentos, como a Medicina, abria espaço para definição de ignorâncias, onde os sujeitos leigos perdiam status. O sentido social dos ‘novos saberes’ era justificar a supremacia de certos grupos em detrimento de outros.
Partindo desses argumentos principais Pereira começa, no primeiro capítulo, Vacina, Varíola e outras formas de cura, a descrever um pouco mais sobre o momento político da Capital Federal. No governo de Rodrigues Alves (1902) inicio-se uma série de reformas na capital. O prefeito do Rio, Pereira Passos, começou um processo de reforma urbana, marcada pela abertura de avenidas, expulsando assim muitos trabalhadores instalados em cortiços e casas de cômodos da região central. Outra preocupação urgente do governo era com relação à higiene pública, pois a população vinha definhando com o grande surto de doenças transmitidas pelas condições sanitárias da cidade. Por ter conseguido a erradicação quase total da peste bubônica em São Paulo, Oswaldo Cruz assume o posto de Secretário-Geral da Saúde, em 1903. A par das teorias recentes na medicina, Cruz recebe aval do governo para controlar a insalubridade da capital, alcançando índices significativos contra a febre amarela e a peste, por meio de atuações enérgicas e violentas. Na campanha contra a febre amarela, compôs grupos, intitulados ‘brigadas mata-mosquitos’, com o poder de invadir e vistoriar residências, fiscalizar e demolir construções. Em Junho de 1904 há surto de outra epidemia. Diferente das outras doenças, essa era de origem viral e mais difícil de ser combatida, sendo a vacinação o único meio eficaz de combatê-la. Oswaldo Cruz, então, propõe um projeto de obrigatoriedade da vacinação para toda a população, o qual foi muito mal recebido por toda sociedade carioca, pois compreendia no projeto um atentado contra as liberdades individuais, sendo até mesmo vexatório para a população. Pereira relata que o desrespeito aos direitos dos trabalhadores era uma constante, e os protestos contra a vacina sempre estiveram vinculados também à ação policial.
Essa hostilidade à polícia pode ser notada no romance O Cortiço de Aluísio Azevedo no momento em que ele narra um confronto entre os moradores do cortiço e a polícia, mostrando também como era arquitetada uma barricada: “A polícia era o grande terror daquela gente, porque sempre que penetrava em qualquer estalagem havia grande estropício; à capa de evitar e punir o jogo e a bebedeira, os urbanos invadiam os quartos e quebravam o que lá estava, punham tudo em polvorosa. Era uma questão de ódio velho. E, enquanto os homens guardavam a entrada do capinzal e sustentavam o portão da frente, as mulheres, em desordem, rolavam as tinas, arrancavam jiraus, arrastavam carroças, restos de colchões e sacos de cal, formando às pressas uma barricada” [i].
A mídia oposicionista se aproveitou para propagar idéias contrárias à vacinação, tencionando desmoralizar o governo e a própria vacina. “A própria lógica na qual se baseava a eficácia da vacina era, assim, utilizada por seus críticos para atacá-la, disseminando uma desconfiança sobre ela que parecia ir muito além dos círculos letrados restritos, que nesse momento capitaneavam a oposição às medidas de Oswaldo Cruz” [ii]. É importante lembrar que a medicina não era tão legitimada como hoje, representando apenas uma dentre as tantas práticas de cura, muitas delas adotadas pelos trabalhadores. O candomblé adquiriu força junto à parte da população carioca, pois muitos escravos da região central da África foram trazidos para a região centro-sul do país, criando entre eles laços de conhecimentos e identidades. Para Pereira, o sistema de crenças dos trabalhadores organizava a forma como viam e interpretavam o mundo. As religiões afro-brasileiras “baseavam suas opiniões em uma lógica muito bem articulada. Em um contexto no qual a própria medicina se mostrava objeto das mais vivas polêmicas e contestações, preferiam apostar em seu próprio saber, com o qual tinham contado por décadas, para buscar a imunização contra a doença” [iii].
Pode-se dizer também que as normas definindo a obrigatoriedade de vacina para certos grupos não era novidade no Rio de Janeiro, onde desde o século XIX as leis priorizavam as crianças, os cortiços e casas de cômodo. Em 1891, a vacinação obrigatória se estendia para funcionários públicos e membros da força policial, e em tempos epidêmicos era estendida a toda a população. A novidade no projeto de Cruz era a forma arbitrária adotada pelos funcionários da Saúde, invadindo domicílios, muitas vezes com o apoio da polícia, nutrindo a indignação do povo. Constava no projeto que o comprovante da vacina seria exigido nos trabalhos e hospedagens, afetando diretamente o trabalhador.
A tensão na cidade é crescente e impulsiona a organização do movimento contra a vacinação obrigatória. A classe trabalhadora, por meio do Centro das Classes Operárias, organização de tendências socialistas que congregava importantes sindicatos, realiza um encontro no dia 06 de Outubro de 1904 para criação de uma Liga Contra a Vacinação, apoiados por militares e políticos de grande prestígio entre as classes letradas. Desses oposicionistas faziam parte os positivistas – contrários ao governo e à vacinação, acreditando ser esta um atentado contra a privacidade –, o Exército – influenciado pelos positivistas – e os sujeitos desconfiados da eficácia da vacina.À época, tinha-se a pretensão, por parte da imprensa, de passar a idéia de um grupo opositor homogêneo e coeso, mas as motivações de cada grupo eram diversificadas. O autor deixa claro que os defensores e opositores à vacina acreditavam numa manipulação, de ambas as partes, da reação popular ao projeto de vacinação, excluindo a possibilidade de organização e ação autônomas.
Leonardo Pereira vai narrar o início e o desenvolver do confronto de forma muito similar à de José Murilo Carvalho, descrevendo as lideranças envolvidas e o controle que achavam ter sobre a população. Na verdade, as lideranças não incitavam a população à luta armada, pedindo calma e cautela para fazer valer os direitos patrióticos. Mas as massas já não seguiam o estabelecido pelas lideranças e o confronto crescia a cada dia. A revolta se espalhou com velocidade, tomando toda a região central, surpreendendo até mesmo a imprensa com a proporção da insatisfação em relação à lei de obrigatoriedade.
No dia 14 o conflito já se espalhara para outras regiões da cidade, que continuava a ser depredada pela ação dos confrontos. Condutores de energia elétrica, bondes, linhas telefônicas eram inutilizados pela população no combate à ação policial. Os conflitos assumiam caráter pior e mais violento nos bairros de trabalhadores e pobres: Saúde, Cidade Nova, Estácio, Gamboa. Para os adversários do governo essa reação das pessoas seria uma manifestação espontânea do ódio de um povo massacrado e perseguido pelo desvirtualismo da República; fruto da insatisfação de um coletivo homogêneo; expressão da ‘alma nacional’. Já o governo, acreditava que os conflitos eram originados por ações criminosas e inconseqüentes de arruaceiros, vândalos servindo a uma causa estranha a eles, desordeiros que se faziam da ocasião para badernar. Essa campanha de desqualificação dos revoltosos é minada pela própria mídia em favor do manifesto, pois jornais como Correio da Manhã relatavam a participação intensa dos trabalhadores.
No capítulo seguinte, Os rostos da revolta, Pereira aponta as participações de diversos grupos sociais envolvidos nas guerrilhas urbanas, sendo os vagabundos a menor parcela do contingente que se confrontava com a polícia. No começo dos conflitos houve participação massiva dos estudantes e funcionários públicos, e aos poucos os próprios empregados da Saúde Pública, soldados e policiais foram aderindo aos levantes. No entanto, a maioria dos manifestantes era composta por trabalhadores: ferreiros, padeiros, comerciantes, operários.
A revolta era movida por uma insatisfação generalizada capaz de aglutinar uma multidão não só de trabalhadores, mas, também, uma série de outros sujeitos que tomaram partido do acontecimento, criando um universo de diferenças e tensões. O conflito abarcou indivíduos discrepantes não só no que diz respeito às classes sociais, mas também às variações etárias – jovens, adultos e idosos participavam ativamente –, de gênero – as mulheres se empenhavam nos confrontos contra a força policial –, étnicas e de nacionalidade – muitos manifestantes eram imigrantes europeus, em sua maioria, portugueses e italianos.
A multidão não se enquadrava em nenhuma das imagens construídas para ela pela imprensa. “Ao contrário do que postulavam tais explicações gerais para a revolta, o que se notava em meio às ruas era a explicitação das diferentes redes de identidade e solidariedade, que explicavam a participação dos mais diversos sujeitos [...] Sem sequer tentar compreender tais motivações, por não ver nesses grupos capacidade de construção de tradição e práticas próprias, restava às autoridades insistir na tese de que o conflito era simples fruto da manipulação de lideranças” [iv].
No capítulo 3, intitulado A revolta da tradição, Leonardo Pereira pretende compreender algumas das motivações dos indivíduos que participaram dos acontecimentos de novembro de 1904. O autor começa evidenciando que existia por parte desses seres, um profundo descontentamento com relação aos rumos que a administração dessa República havia tomado, frustrando os anseios de uma população carente de melhorias das condições de vida. Essa decepção seria fundamental para que a revolta acontecesse.
A partir deste momento, o autor, dedica suas atenções aos acontecimentos que marcaram o fim do movimento, como a insurreição dos alunos da Escola Militar que em 14 de novembro, incitados pelo General Travassos e por Lauro Sodré, abandonaram suas posições unindo-se ao corpo de revoltosos.O governo por sua vez, organizou sua resistência, tendo contado com o apoio de diversos batalhões do Exército, espalhados pela cidade. Essa reunião de forças parecia necessária para conter o movimento, pois compreendia na ação dos militares, a intenção política de derrubar o governo de Rodrigues Alves e em substituição, implantar uma ditadura comandada por Lauro Sodré.
No confronto verificaram-se violência de ambas as partes, no entanto, considerando suas baixas, os soltados rebelados abandonaram seus postos. O que encerrava o levante militar. Segundo Pereira, os cadetes se identificavam com a figura de Lauro Sodré, no qual depositavam suas esperanças de retorno dos tempos da influencia militar na administração republicana, que após 15 anos estava concentrada em mãos civis. Nesse momento, o governo toma medidas mais enérgicas para conter os levantes, tais como a declaração do estado de sítio e a repressão aos jornais oposicionistas, o Correio da Manhã e O Comércio do Brasil. A medida sem dúvida estava relacionada ao aumento no número de tiragem desses jornais, e no temor de que o conteúdo exercesse influência sobre os manifestantes. Por outro lado, as autoridades aumentaram a perseguição, aos supostos líderes do levante militar, o que por conseqüência culminou no aumento das prisões. As forças do governo concentravam-se na captura dos líderes do movimento contra a vacinação, que por sua vez, se apressaram em esconder-se das autoridades.Essa debilidade levou os jornais governistas a promoverem críticas na qual o movimento era chamado ironicamente de “mazorca de fujões” [v]. Com a prisão ou desaparecimento dos líderes o fim do movimento parecia próximo. Mas teria ainda um fôlego final: Os revoltosos de Porto Arthur.
Leonardo Pereira analisa mais profundamente as barricadas do bairro da Saúde, último foco de resistência da revolta. As barricadas desse bairro e das regiões portuárias se transformavam em verdadeiras fortalezas, prontas para resistir e atacar a força pública. Na época comparou-se a resistência na Saúde com o episódio de Porto Arthur, em que os Russos formaram formidável resistência, durante a guerra russo-japonesa.As barricadas da Saúde impressionavam pela força e combatividade, causando grande terror às autoridades governamentais. Os revoltosos se mostravam como defensores de uma causa que a classe letrada parecia estar longe de compreender. A imprensa via as barricadas remanescentes como um grande ajuntamento de vagabundos.
Parte do temor das autoridades às barricadas de Porto Arthur estava relacionada às notícias vinculadas pela imprensa, onde foi montado um perfil sinistro para os manifestantes que dela faziam parte. Na opinião do autor, a imagem de Porto Arthur era construída mais pelo preconceito das classes letradas, e pelo medo do governo em relação às chamadas ‘classes perigosas’ do que à verdadeira ameaça que ela poderia oferecer.
Para além, havia por parte das classes instruídas e militares o consenso de que os trabalhadores não eram capazes de se mobilizar conjunta e autonomamente, o que seria para estes, uma marca da colonização portuguesa que teria feito predominar as “tendências pacíficas” [vi]. Opostamente, Lauro Sodré, atribuía a ausência de mobilização à herança da escravidão, que tornou impossível a organização de trabalhadores em prol de suas causas. As duas visões eram incapazes de considerar o povo carioca sujeitos capazes de interferir em suas realidades sociais.
Com a derrota da última barricada ela se desmistifica, o que evidencia que os manifestantes se aproveitaram do temor e da imaginação das autoridades, bem como da imprensa, para aumentar o poderio da barricada. Os jornais, por temor, romantismo ou estética, criaram personalidades e ensejos, características exóticas, para enfeitar o movimento revoltoso, principalmente no que diz respeito ao bairro da Saúde.
Os trabalhadores da Saúde, não tinham o perfil sindical combativo modelado na experiência européia, pelo contrário, mostravam suas próprias formas de articulação e enfrentamento, foi o caso dos estivadores da região do porto, que preferiram ficar afastados dos confrontos armados, mas que em contrapartida ‘cruzaram os braços’, atrapalhando as atividades do porto. Segundo Pereira, essas práticas de luta eram tão legítimas como as barricadas, ainda que alguns grupos sindicais criticassem esse tipo de arma.
Neste sentido, as associações de trabalhadores constituem papel essencial para a união, reconhecimento e solidariedade entre eles. Na mesma direção, os clubes recreativos – sejam eles carnavalescos, esportivos ou de dança – corroboraram para criar identidades comunais, através do auxílio mútuo.
Em seguida, Leonardo Pereira, investiga o contexto social, no qual as convulsões de 1904 aconteceram, pois até mesmo os jornais não acreditavam que apenas a vacina pudesse ser a única causa dos distúrbios.
No que se refere a isto, causava estranheza que os manifestantes atacassem alvos que não tinham relação aparente com a saúde pública - os bondes, a iluminação pública, o sistema de telefonia –, elementos modernizantes da cidade. Dessa forma, os revoltosos não apenas questionavam essa modernização, da qual muito deles estavam à margem, mas dificultavam a perseguição policial e a comunicação entre as delegacias.
Sob a perspectiva desse autor, os questionamentos quanto às motivações da revolta, não ficaram estáticos ao passado, sendo ainda temas vigentes na historiografia. Menciona a análise de José Murilo de Carvalho segundo a qual, o ímpeto para a revolta contra a obrigatoriedade da vacina, tinha suporte na questão da moral, que se configurava na medida em que as autoridades invadiam as casas dos trabalhadores para tocar o corpo de suas mulheres e filhas, a fim de injetar-lhes uma vacina “feita de rato” [vii]. Para Leonardo Pereira, se houve uma questão moral – que obviamente provinha de grupos letrados –, o povo ressignificou-a de acordo às suas necessidades, alargando o horizonte moral a ser defendido.
Para compreender essa questão, o autor adentra no universo simbólico das tradições do povo carioca.
Nas barricadas de Porto Arthur – o maior ponto de resistência –, verificou-se a presença de bandeiras brancas e vermelhas. Para o autor, as cores tinham menos significados políticos – pois o vermelho estava associado ao socialismo –, do que religiosos, já o vermelho e o branco eram a cor de “Obaluaiê, um poderoso Orixá da varíola – cujas contas e roupas tinham no vermelho, no branco e no preto suas marcas” [ix]. Não é preciso mencionar que já nessa época grande parte da população carioca era negra ou afro-descendente, por esta razão, o culto aos orixás [viii] era totalmente pertinente à cultura carioca.Os adeptos do Candomblé possuíam suas próprias práticas de cura, e por isso seus curandeiros eram perseguidos e – não apenas por isso – sua cultura desprezada. Portanto, para muitos, para além de lutar contra a obrigatoriedade da vacina, estavam em xeque suas práticas e crenças religiosas.
Por fim, o autor arremata que assim como os moradores do bairro da Saúde tinham motivações específicas – suas crenças –, outros grupos também podiam ter se envolvido na questão da vacina, em defesa de suas próprias demandas.
No capítulo conclusivo, Entre vitórias e derrotas, Pereira considera ao término dos embates, ainda que muitos envolvidos tivessem sido presos e cerca de duas dezenas deles tivessem tido suas almas ceifadas, o movimento obteve êxito, pois conseguiu impedir que o projeto de vacinação obrigatória fosse aprovado. Ainda que o custo da vitória tenha sido o aumento da perseguição policial e o aumento de epidemias, a liberdade de escolha das estratégias de cura estava garantida, e de igual maneira, ficava registrada na memória e na história, a capacidade associativa de trabalhadores que na maior parte do tempo pareciam anônimos.
A análise de Leonardo Pereira nos permite compreender que visões como as de Aristides Lobo, e de José Murilo de Carvalho de que o povo brasileiro era bestializado e bilontra respectivamente [x], são meras reproduções dos discursos dos grupos que se alternam no poder desde a proclamação da república. Por outro lado, Pereira nos apresenta um novo mundo simbólico que perpassa a herança cultural do povo brasileiro, nos permitindo enxergar a ação popular não apenas no âmbito político de suas reivindicações, mas também sua esfera cultural. Assim, caí por terra qualquer análise que considere que esse mesmo povo, seja incapaz de se mobilizar em torno de seus objetivos sejam eles políticos, econômicos ou sociais.
[i] AZEVEDO, A. O cortiço. 10 ed. São Paulo: Ática, 1890, p. 88
[ii] PEREIRA, L. A. de M. As barricadas da Saúde: Vacina e protesto popular no Rio de Janeiro da Primeira República. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2002, p. 22.
[iii] Ibidem, p.30
[iv] Ibidem, pp. 63-64
[v] Ibidem, p. 71
[vi] Ibidem, p. 81
[vii] Ibidem, p. 98
[viii] De acordo com Prandiem PRANDI, R. Segredos Guardados: orixás na alma brasileira. São Paulo: Companhia das letras, 2005. “O deus da peste, que recebe o nome de Olmulu, Olu, Odo, Obaluaie, Ainon, Sapatá, Xaponã ou Xapanã, resultou da fusão da devoção a inúmeros deuses cultuados em territórios ioruba, fom e nupe. As transformações pelo deus da varíola, descritas por Claude Lépine (1998, 2000) até sua incorporação ao panteão contemporâneodos orixás, mostra a importância das migrações e das guerras de dominação na vida desses povos africanos e seu papel na constituição de cultose conformação de divindades”. p. 107
[ix] Ibidem, p.100
[x] CARVALHO, José Murilo. Os Bestializados. O Rio de Janeiro e a República que não foi. 3. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.
Na última semana, o grupo responsável pela discussão sobre a obra de Walnice Nogueira Galvão, O Império do Belo Monte – Vida e Morte de Canudos, postou sua resenha neste blog e apresentou seminário sobre o texto em sala. Dando prosseguimento ao debate, expomos nossa análise acerca dos trabalhos realizados.
Inicialmente, a professora Isabel Guillen introduziu o tema de Canudos ressaltando a importância da história oral nas novas descobertas sobre o assunto e o crescimento da historiografia do movimento a partir de 1996, influenciado pelo centenário da Guerra de Canudos. Destaca, também, sua discordância a respeito da interpretação do grupo sobre a “loucura” de Antônio Conselheiro presente no texto de Walnice, alertando sobre a dificuldade de entendimento dos fenômenos religiosos em geral. Posteriormente, os alunos esclareceram essa questão.
O texto de Walnice Galvão não é uma obra fácil de ser resenhada. Para entender a raiz do fenômeno Canudos, a autora inicia seu trabalho desde a chegada dos primeiros hominídeos na América, passando pela chegada dos portugueses e o empreendimento bandeirante. O grupo foi muito bem ao sintetizar essa parte do texto na resenha, apesar de ter se alongado um pouco no assunto durante a apresentação.
Nesse momento o grupo procurou elucidar a polêmica sobre a suposta loucura de Conselheiro, destacando que a autora, quando trata do tema, se recorre a João Brígido, jornalista e amigo de infância de Conselheiro, destacando que a idéia de um Conselheiro “louco” não é de Walnice. No entanto, ao ler a resenha, tem-se a impressão imediata de que a idéia é da autora, "A loucura, portanto, já viria da família, e seu veredicto a respeito é que ele se tornou um monomaníaco", diz Walnice (2001, p. 22). O entendimento se tornaria mais fácil se o grupo tivesse sido tão claro na resenha quanto foi na apresentação.
Outro ponto de relevância se deu quando da abordagem do grupo acerca do significado da palavra sertão, remetendo-se ao conceito de Robert Levine, ao mesmo tempo em que se contrapõem e esse conceito embasados na opinião de Walnice sobre o tema. A professora Isabel e outros alunos também deram sua contribuição neste assunto. Essa discussão é particularmente interessante por mostrar o quanto o conceito e o espaço conhecido como sertão foi sendo alterado historicamente.
Na quarta feira ao abordar a questão da religiosidade o grupo cometeu um equívoco ao afirmar que a religião era uma forma daquelas pessoas fugirem da realidade miserável. A professora Isabel reiterou a importância de se olhar à religião não a partir da razão ocidental, mas a partir dos códigos sociais daquelas pessoas. Outros alunos também se envolveram nessa discussão. A conclusão a que se chegou nesse debate é que a religião é algo intrínseco as pessoas, uma forma de dar significado a vida e ao mundo que o cerca.
A seguir foram discutidas as condições políticas que antecederam a formação de Canudos e a organização social do arraial. A resenha falhou em ressaltar algumas figuras centrais na política baiana como o Barão de Jeremoabo e o governador Luiz Viana, destacados pela autora ao longo do livro. Essa falha comprometeu o entendimento sobre a oligarquia baiana da época. A organização social é explicada em parte no texto, mas faltou uma exposição maior e melhor sobre o assentamento da terra. Esse ponto foi explicado em sala pela professora. Por fim, o grupo fez uma boa explanação sobre a guerra, mas ficou a sensação de que as duas aulas não foram suficientes para o grupo apresentar tudo o que desejava.
A equipe conseguiu a façanha de manter a coerência discursiva em um texto escrito a doze mãos, fazendo uma boa resenha do livro sem parecer uma colcha de retalhos (coerência discursiva 2,0 pts). O texto resume bem o trabalho da autora, mas algumas idéias escaparam ou não ficaram completas como a organização social do arraial, as condições políticas baiana e a questão religiosa (objetividade 1,5 pts). Já na parte do posicionamento do grupo os mesmos, fizeram apenas descrever as principais partes do texto não tendo um posicionamento a frente das questões levantadas ainda que o trabalho da autora seja essencialmente narrativo, mas há de se questionar algumas escolhas de Walnice, como por que ela dá tanto peso a opinião de João Brigido ao falar da “loucura” de Conselheiro(posicionamento crítico 1,0 pts). O grupo fez um bom debate com a historiografia da autora, trazendo a luz outras opiniões, ainda que discordemos que Edmundo Moniz tenha uma postura parecida com a de Walnice. Moniz via a religião apenas como um pano de fundo para a luta social, e não é essa a intenção de Walnice Galvão (debate historiográfico 1,5 pts). As normas da ABNT foram seguidas corretamente (Uso correto da ANT 2,0 pts). Com base nisso atribuímos ao grupo a nota 8,0.
SEVCENKO, Nicolau. A Revolta da vacina: Mentes insanas em corpos rebeldes. Scipione, São Paulo, SP, 2001.
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Isabela Magalhães
Juliana Pinho
Kallyna Helena Marcolino
Luiz Felipe Batista Genú
Nathalia Bezerra Soares de Melo
Rafael de Andrade
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A Revolta da Vacina é um tema que chama a atenção devido a suas particularidades, como a ampla participação da população e a violência dos embates entre revoltosos e as forças de repressão, ocorridos nas ruas da capital federal da época. Entender a verdadeira motivação de um movimento tão intenso e que conseguiu abranger uma gama tão variada de pessoas destaca-se como algo fundamental para a real compreensão não apenas sobre a revolta, mas também a respeito dos primeiros anos da republica brasileira. Com o objetivo de chegar às causas mais profundas da rebelião e, além disso, analisar a relação entre essas causas e as características da sociedade brasileira da época, o professor Nicolau Sevcenko, em 1983, dedicou o livro “A Revolta da Vacina – Mentes insanas em corpos rebeldes” a investigação do tema.
No primeiro capitulo, cujo título é “O motim popular: ímpeto”, o autor faz uma descrição detalhada do cotidiano da revolta que se passou em 1904 no Rio de Janeiro, então capital federal do Brasil. Segundo o autor, esta aconteceu em virtude da crescente insatisfação popular com a política de reformas do presidente Rodrigues Alves, que chegou ao ápice durante a campanha sanitária de vacinação contra a varíola.
Os setores de oposição política da época reagiram ruidosamente à campanha da vacinação. Eram os principais opositores os florianistas, jovens oficiais formados nas escolas técnicas de preparação de cadetes, que preconizavam uma reorganização da sociedade inspirada, entre outros, nas teorias de Augusto Comte; os jacobinos, civis, oriundos de setores urbanos prejudicados pelo governo e aliados ideologicamente ao primeiro grupo, e por fim, mais interessados na desestruturação do governo republicano como um todo, os monarquistas. Esta oposição heterogênea, que já vinha articulando um golpe contra o governo, viu na reação popular uma oportunidade para legitimar suas ações e começou intensa campanha contra a vacina, tanto entre o povo, com a ajuda de alguns setores da imprensa, quanto no âmbito político, onde usaram de toda a sua influência para retardar a promulgação de uma possível lei de obrigatoriedade da vacina.
A medida era de interesse do governo, que defendia que a vacinação era de extrema importância para a saúde publica do Rio de Janeiro, na época o maior foco de varíola no Brasil; além disso, dizia que tais medidas sanitárias já haviam sido implantadas com sucesso em países europeus. A oposição argumentava que a eficácia dos soros era contestável, assim como a competência e a moralidade dos enfermeiros, fiscais e policiais responsáveis por sua aplicação. Criticavam, acima de tudo, o caráter obrigatório da lei, a qual chamavam de tirana. Mesmo elementos da elite social que não se identificavam como opositores, como Rui Barbosa, mostravam insegurança quanto à eficácia da vacina. A massiva campanha contra a vacina fez-se sentir: em agosto de 1904, apenas 6 mil pessoas procuraram voluntariamente a vacinação, contra 23 mil pessoas no mês anterior.
Apesar da controvérsia, a lei foi votada no dia 31 de outubro e sua regulamentação foi delegada ao Departamento de Saúde Pública, que era dirigido por Oswaldo Cruz. O regulamento esboçado por este, publicado no jornal A Notícia no dia 9 de novembro de 1904, apresentava termos extremante rígidos e impunha diversas complicações para os que não se vacinassem, como multas pesadas e suspensão de certos direitos civis. Nicolau Sevcenko nota a falta de preocupação, da parte dos dirigentes, com a preparação psicológica da população para a vacinação.
As agitações começaram no dia seguinte à publicação, com resposta quase imediata da Brigada Policial.
No dia 11, A Liga Contra a Vacina Obrigatória, encabeçada por Lauro Sodré e com o apoio do Centro das Classes Operárias, incitou e liderou as manifestações populares. A Liga, um instrumento da oposição, pretendia usar da revolta para abalar o governo e concretizar seu próprio projeto político, mas não teve sucesso e eventualmente perdeu o controle dos manifestantes; o autor argumenta que “para os amotinados não interessava selecionar lideres ou plataformas, mas sim, lutar por um mínimo de respeito à sua condição de seres humanos. A Liga então diminui sua importância no seio do movimento, que tende a tomar um curso dispersivo e espontâneo” (SEVCENKO, 2001, p. 20).
Nos três dias seguintes a agressividade dos populares cresceu, com a vandalização de propriedade pública e a disposição de barricadas e trincheiras nas ruas. As autoridades perderam o controle da região central e de bairros periféricos, como a Gamboa e a Saúde. Os materiais resultantes da reforma urbana da cidade serviam de munição para os insurretos.
A reação do governo foi brutal: lançou mão de todos os recursos de contenção disponíveis, convocando, além da Polícia, o Exército, a Guarda Nacional e a Marinha, que chegou a bombardear bairros e regiões costeiras. Só através dessa impressionante mobilização de forças repressivas é que o governo conseguiu, afinal, responder à insurreição.
Afinal, no dia 16 foi revogada a obrigatoriedade da vacina. Com os revoltosos finalmente subjugados e retirada a causa imediata da revolta, o movimento chega ao fim. A cidade após a revolta era um caos de destroços e ruínas, com marcas de combate por todas as partes, além de um numero incalculável de mortos e feridos.
No segundo capítulo, intitulado “Conjunturas sombrias: angústia”, o autor retoma algumas medidas dos governos anteriores para explicar em que situação Rodrigues Alves foi recebido na cidade do Rio de Janeiro. Identificado como continuador do projeto político impopular do governo de Campos Sales, o novo presidente teve uma recepção fria, uma vez que, segundo o autor, a população carioca votara maciçamente no candidato da oposição, Quintino Bocaiúva. (SEVCENKO, 2001, p. 37)
Enquanto o presidente paulista Prudente de Morais, eleito em 1894, se encarregou de pacificar as turbulências revolucionárias herdadas dos governos militares, seu sucessor, Campos Sales, incumbiu-se de recuperar a economia do país. O objetivo era apresentar para grandes potências uma imagem de governo sólido e estável, e assim atrair investimentos. Campos Sales renegociou a dívida externa com sucesso às custas de um processo de deflação e de arrocho da economia interna. O ministro da Fazenda da época, Joaquim Duarte Murtinho, estabeleceu medidas econômicas com conseqüências sociais drásticas: demissões de funcionários e operários, suspensão de serviços e pagamentos, maior carga tributária. Essas determinações atingiram a população mais pobre, que já sofria com o desemprego e o alto custo de subsistência, e provocaram diversos motins populares. O setor beneficiado pelas novas medidas econômicas foi o da cafeicultura paulista, consolidando a hegemonia deste grupo sobre os demais setores nacionais.
Rodrigues Alves considerava, contudo, que não era bastante pacificar as rebeliões regionais e estabilizar a economia para conseguir recursos estrangeiros para o Brasil: precisava superar ainda outros obstáculos, como ampliar o porto do Rio de Janeiro, incompatível com as atividades econômicas da época, e revitalizar a própria estrutura da cidade cujas ruas estreitas e tortuosas, tipicamente coloniais, dificultavam o transporte de mercadorias. Tornou-se imprescindível para o projeto governamental o melhoramento do porto e a remodelação urbana do Rio de Janeiro, projeto que, de acordo com Sevcenko, foi drástico e de terríveis conseqüências.
O presidente iniciou a execução de seu projeto indicando Lauro Müller para a reforma do porto e delegando-lhe poderes e recursos ilimitados. Pereira Passos foi nomeado prefeito do Distrito Federal e encarregado das obras de embelezamento e salubridade. Através da lei de 29 de dezembro de 1902, arbitrária e anticonstitucional segundo a oposição, o prefeito recebeu poderes absolutos. O autor utiliza a citação de Afonso Arinos de Melo Franco, um jurista e biógrafo da administração de Rodrigues Alves, para demonstrar o alcance desses poderes: “Começava por adiar por seis meses as eleições para a Câmara Municipal, o que vinha deixar ao prefeito, desde logo, as mãos livres de qualquer algema oposicionista [...]. o artigo 23 completava a disposição, pois, segundo ele, quando se tratasse de demolição, despejo, interdição e outras medidas, haveria apenas um auto afixado no local, que previa penalidades contra as desobediências. Daí vieram os numerosos casos de demolição, com famílias recalcitrantes ainda dentro dos prédios.” (SEVCENKO, 2001, p. 46). Rui Barbosa foi um dos poucos que alertou a elite política sobre as prováveis conseqüências dessas atitudes demasiadamente enérgicas, que provavelmente seriam extremamente desagradáveis para a população.
Havia ainda um terceiro ponto: os surtos de doenças como febre amarela e varíola. Sevcenko alega que a cidade era conhecida internacionalmente como “o túmulo dos estrangeiros”, de forma que muitos visitantes não desembarcavam por precaução (SEVCENKO, 2001, p. 40). As campanhas para a erradicação das endemias tomaram o mesmo curso autoritário das reformas urbanas, com Oswaldo Cruz assumindo a coordenação do projeto sanitário da capital e recebendo plenos poderes para cumpri-lo. A oposição chegou a chamar suas campanhas de “ditadura sanitária”, referindo-se à lei que permitia a invasão, fiscalização e demolição de casas ao mando do agente sanitário, e que estabelecia foro próprio para evitar qualquer tipo de resistência da parte da população. Esta lei da obrigatoriedade fortalecia ainda mais a força dos agentes: a população estava sob o capricho dos funcionários públicos. Sevcenko sintetiza essa situação da seguinte forma: “Se alguém escapara dos furores demolitórios de Lauro Müller e do prefeito Passos, não teria mais como escapulir aos poderes inquisitoriais de Oswaldo Cruz” (SEVCENKO, 2001, p. 53).
Para o autor, era iminente uma reação da parte da população, cada vez mais indignada com a opressão generalizada. É a extensão dessa opressão arbitrária que é o tema do terceiro capítulo, “O processo de segregação: agonia”.
No final do século XIX e inicio do século XX, a população crescia no Rio de Janeiro. Boa parte desse aumento se devia ao grande influxo de pessoas vindas das fazendas arruinadas após a abolição, à procura de trabalho e moradia.
Este aumento populacional acelerou bruscamente o processo de metropolização da capital. Segundo o autor, a conseqüência direta desse crescimento foi a rápida degradação da cidade, com diversas moradias centrais sendo transformadas em cortiços de aluguel barato e higiene precária, onde se amontoavam famílias inteiras. A reforma financeira de Campos Sales agravou a situação ao ameaçar a economia de iniciativas privadas, como pequenos negócios e fábricas, em favor da produção de café. O resultado foi que na capital, onde a população estava muito mais envolvida com o primeiro tipo de economia, os empregos diminuíram e os preços dispararam. A crise econômica interna atingiu em cheio a população mais pobre da cidade, e o resultado foi uma situação social cada vez mais tensa, com a escalada da atividade criminosa.
O governo e suas instituições eram fracos diante dos motins, e sua inabilidade em lidar com o crescente descontentamento da população foi um dos elementos-chave no desencadear da insurreição. A oposição, por sua vez, compreendeu a força desse sentimento de revolta e foi talvez a grande responsável por transpô-lo para o campo das ações, através da organização de comitês e manifestações públicas de protesto. Contudo, também subestimou o povo ao pensar que conseguiria manobrá-lo na direção que desejasse, e quando a revolta popular tornou-se mais intensa, os líderes da oposição deram lugar a lideres populares, como o famoso Prata Preta.
Sevcenko argumenta também que as reformas do governo de Rodrigues Alves agravaram ainda mais a situação ao atingir os populares de diversas formas e em diferentes âmbitos, servindo, muitas vezes, a mais de um propósito. O alargamento das ruas, por exemplo, além de exigir a demolição de centenas de moradias, tornava a construção e manutenção das barricadas mais difíceis, ao mesmo tempo em que permitia maior mobilidade e liberdade de estratégia às forças de repressão; talvez por isso, propõe o autor, a Revolta da Vacina tenha sido o “último motim clássico no Rio de Janeiro” (SEVCENKO, 2001, p. 58). Sevcenko também conclui que a desapropriação forçada das moradias das camadas mais pobres da cidade, quer fossem motivadas pelas reformas urbanas ou pelas ações dos agentes sanitários, fazia parte de um projeto elitista de limpeza social e urbana, chamada pela imprensa conservadora de “Regeneração”. A demolição dos imóveis fez com que a população deslocada migrasse para a periferia da cidade, onde foram construídos novos cortiços. Porém, como o preço da moradia aumentasse cada vez mais, o destino final dos que não podiam pagar era quase que invariavelmente o assentamento em locais impróprios para a habitação, como morros e mangues, ou a participação em atividades ilegais. Por isso, segundo o autor, o levante da Vacina não apresentava um plano político popular: era um grito de revolta de uma população cada vez mais oprimida pela burguesia dominante que controlava o governo.
O último capítulo do livro, intitulado “A repressão administrativa: terror” é uma análise do tipo de repressão desencadeado pela Revolta da Vacina e a sua repercussão. O autor se baseia em depoimentos da época para descobrir uma repressão brutal e intransigente, dirigida contra pessoas que, em sua maioria, não possuíam emprego, moradia ou documentos. A punição dos acusados não se baseou numa investigação de sua participação real no motim; foi, na verdade, encarada pela polícia como uma oportunidade para remover da cidade reformada as pessoas “indesejadas” e potencialmente turbulentas.
Visando legitimar a radical repressão, os relatórios das autoridades tratam sempre os revoltosos como vagabundos e desordeiros, inimigos crônicos da ordem. Em contraposição ao julgamento das autoridades, é apresentado por Sevcenko um depoimento de Lima Barreto onde ele afirma que a composição dos revoltosos era a mais variada possível, tratando-se de pessoas com diferentes profissões e de diferentes posições sociais. (SEVCENKO, 2001, p. 67)
O autor estabelece uma relação entre a discriminação dos corpos - corpos sãos, corpos doentes, corpos rebeldes – e a nova disposição geográfica da cidade, segundo a qual a massa popular, considerada de uma maneira geral como doente, foi empurrada para os morros e subúrbios, onde também foi instalado o parque fabril da cidade. O local onde outrora estas pessoas viveram, o centro, fora reformado e tornara-se a área de lazer da burguesia, onde ela reproduzia os padrões sociais europeus. Foi este, argumenta o autor, o momento da implantação do estilo de vida burguês, no qual o “mundo do trabalho” está separado do “mundo do ócio”. Segundo Sevcenko, o sucesso posterior da campanha de vacinação e do processo de “Regeneração” na implantação desta nova ordem social urbana é encarado pelos representantes da elite como um processo pelo qual se redime o “atraso” do país, tendo como modelo as sociedades européias. Cria-se a partir daí uma noção de divisão da sociedade entre “doentes” e “sãos”, onde caberia aos últimos dirigirem o país apesar dos primeiros. É essa a base para a difusão da idéia, até hoje popular, da apatia do povo brasileiro em relação ao trabalho e à política, que foi usada para justificar, entre outros, a necessidade de imigrantes “adequados” para a nova sociedade. Sevcenko ainda argumenta que o tipo de repressão utilizado na Revolta da Vacina representa um fator de continuidade entre a antiga sociedade senhorial e a nova republicana: “Nesse momento de transição brusca e traumática da sociedade senhorial para a burguesa, muitos dos elementos da primeira foram preservados e assimilados pela segunda: sobretudo no que diz respeito à disciplina social” (SEVCENKO, 2001, p. 80) .
O autor conclui, por fim, que a Revolta da Vacina foi resultado de um processo complexo de aburguesamento e cosmopolitização da sociedade brasileira, que discriminava e submetia os grupos destituídos ao controle social através da opressão: “Sua reação não foi contra a vacina, mas contra a história. Uma história em que o papel que lhes reservaram pareceu-lhes intolerável e que eles lutaram para mudar” (SEVCENKO, 2001, p. 83).
Ainda que reitere algumas das visões tradicionais sobre alguns aspectos da revolta, como a ausência de um plano político popular durante a insurreição, o livro de Sevcenko difere de outros estudos sobre o mesmo tema em vários pontos.
O autor alega, na introdução, que um de seus objetivos é incitar uma maior reflexão sobre o custo social e humano das transformações desencadeadas pela nova ordem político-econômica em ascensão no país. Para enxergar os eventos de 1904 sob um ângulo mais próximo do popular, ele dá ênfase a fontes menosprezadas em outros estudos que constam em sua bibliografia. São fontes como artigos da imprensa e testemunhos de contemporâneos, em especial os do intelectual Lima Barreto, cuja utilização como fonte histórica o autor já havia defendido em seu livro “Literatura como missão” (SEVCENKO, 1999, p. 68).
Sem dúvida, estas fontes permitem uma nova perspectiva sobre a natureza e o desenrolar do levante popular, abordando pontos que não podem ser compreendidos através da análise meramente quantitativa. A contagem de mortos e feridos após a revolta, por exemplo, não é suficiente para compreender o que foi a repressão pós-levante que, segundo as fontes do autor, se estendeu durante dias; nem permite enxergar um quadro do caos urbano que era o Rio de Janeiro antes, durante e após a revolta.
Por outro lado, estas fontes tendem por vezes a pecar pela parcialidade e dramaticidade. Os jornalistas da época certamente seguiam sua própria agenda ao pintar certas notícias com cores mais ou menos fortes ou ao escolher o que publicar e o que omitir. Os testemunhos pessoais são ainda mais suscetíveis à subjetividade dos seus autores: Lima Barreto, por exemplo, tinha imenso desdém pelo sistema republicano que havia, entre outros, desempregado seu pai (SEVCENKO, 1999, p. 125). O resultado é a presença, no texto, de uma crítica fortemente anti-burguesa que muitas vezes parece exagerada, e que somada ao tom emotivo adotado por Sevcenko (reconhecido e escusado pelo mesmo na introdução do livro), torna o leitor mais cauteloso quanto às informações adquiridas.
O livro consegue, contudo, fazer-nos questionar nossa própria visão sobre o que aconteceu no Rio de Janeiro em 1904. Ao focar não as permanências políticas, mas as rupturas sociais trazidas pelo novo governo, Sevcenko consegue construir uma atmosfera na qual vemos, em apenas 15 anos, um processo de transformação social firme, projetado e liderado pela elite, que atropela as classes mais pobres. Não é tão importante, neste caso, se o leitor concorda com seu ponto de vista ou não, mas sim que este é pertinente o suficiente para gerar diversos questionamentos sobre o que conhecemos tradicionalmente como revolta, mas que nos é apresentado, no livro, em termos mais próximos de uma guerra civil.
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
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SEVCENKO, Nicolau. A Revolta da vacina: Mentes insanas em corpos rebeldes. Scipione, São Paulo, SP, 2001.
SEVCENKO, Nicolau. Literatura como missão: tensões sociais e criação cultural na Primeira República. Brasiliense, São Paulo, SP, 1999.